Robben Island: longo caminho para liberdade


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BEM-VINDO À PRISÃO - Portão de entrada do centro de detenção da Robben Island, local que serviu para manter presos políticos como Nelson Mandela. Ilha é repleta de pássaros, como gaivotas (ao alto) e pinguins (no canto, à esq.)
BEM-VINDO À PRISÃO - Portão de entrada do centro de detenção da Robben Island, local que serviu para manter presos políticos como Nelson Mandela. Ilha é repleta de pássaros, como gaivotas (ao alto) e pinguins (no canto, à esq.)

Por ironia da natureza, a Robben Island, sinônimo de prisão e humilhação, está repleta de alguns dos mais belos símbolos da liberdade: os pássaros. Há gaivotas por todos os lados, sobrevoando o cais ou repousando nos campos livres que entremeiam as casas já desgastadas pela força dos anos. A 11 quilômetros da Cidade do Cabo, aqui parece uma cidade decadente que parou no tempo, que emana uma energia ruim, sobretudo para quem compreende o verdadeiro significado da paragem.


Logo após descer do barco, que parte diariamente da Waterfront para levar centenas de turistas até Robben Island, somos recepcionados por um senhor de fala enrolada e passos tortos, que se identifica como Cipho e sorri quando falamos de futebol.


Ele é um dos muitos ex-prisioneiros da ilha e que hoje trabalha para mostrar ao mundo o que todo aquele cenário representa. “Este não é um simples passeio turístico. A Robben Island está aqui para que o erro nunca mais se repita”, disse o jovem guia Craig. “Se vocês perderem o barco de volta, eu dou minha garantia de que aqui vocês terão acomodação”, brincou o guia.


A risada, no entanto, é momentânea, pois tudo o que se vê e se ouve por aqui fica mais intenso e tocante, levando-se em conta que a Robben Island foi desativada muito recentemente, há apenas 14 anos.


A ilha deixou de servir aos interesses políticos do apartheid em 1990, quando Nelson Mandela e outros opositores do regime de segregação racial os membros do partido ANC (Congresso Nacional Africano, sigla em inglês), o mesmo do presidente atual Jacob Zuma foram libertados. Até 1996, a Robben funcionou como uma prisão convencional e em 1999 recebeu o título de Patrimônio da Humanidade, pela Unesco.


A ilha tem mais de 13 mil metros quadrados de área e, por isso, todo o passeio é feito em um ônibus de fabricação brasileira, que do lado de fora leva a frase “A jornada nunca é longa quando se está em busca da liberdade”. A primeira parada é Leper Graveyard, cemitério onde estão enterrados dezenas de leprosos até a década de 1930, muitos portadores de lepra, além de doentes mentais, eram encaminhados para a ilha. O silêncio permanece entre os passageiros. Pelo caminho, encontramos um amontoado de celas ao ar livre, com espaço interno inferior a 5 metros quadrados cada. Para evitar qualquer tipo de escapatória dos presos, a polícia treinava cães para ficarem de prontidão durante a noite e para atacarem fugitivos.


Em seguida, passamos pela pedreira, local em que os prisioneiros trabalhavam diariamente. A atividade deixou a visão de Nelson Mandela prejudicada, devido aos raios de sol que refletiam nas pedras em suas pupilas. Após uma rápida parada na orla, chegamos ao prédio principal da cadeia.


Cercada por arame farpado por todos os lados, a prisão de segurança máxima é apresentada por uma grande placa em preto e branco com uma foto de ex-detentos libertos e os seguintes dizeres: “Nós queremos que a Robben Island reflita o triunfo da liberdade e a dignidade humana sobre a opressão e a humilhação”.


Dentro de uma sala composta por 20 janelas engradadas, os turistas são colocados a ouvir uma série de detalhes sobre a vida cotidiana dos prisioneiros. Os quatro diferentes níveis entre os cárceres, as péssimas condições de convivência e a censura dos jornais que podiam ser lidos pelos internos sempre cheios de buracos, já que os artigos políticos eram recortados previamente.

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