Nunca escrevi uma história de amor. Uma história com começo, meio e fim, episódios trágicos, algumas situações de desencontros para no final, tal e qual nas telas de cinema, surgir a palavra Fim.
Este Fim sugeriria a continuação de toda aquela magia iniciada numa troca de olhares ou numa situação de antagonismo ou num cenário caribenho ou na feira mesmo, que amor não escolhe hora nem lugar. E olhe que acredito nele, no Amor e já acompanhei, ao vivo, romances de todo gênero, número e grau... Comecei a pensar nesse assunto quando chegou a notícia do falecimento de uma tia querida, irmã de minha avó materna. Sempre olhei aquela tia com carinho especial. Hoje entendo o motivo.
Vivi, ouvi, tomei conhecimento e convivi com as lendas da família que por ser grande, forneceu material e subsídio para romances e romances, reais e imaginários. Todas as pessoas, com as coordenadas históricas dadas pelos mais velhos, costuram suas próprias colchas de retalhos. Não fui diferente. Minha avó materna era a caçula de uma penca de filhos de um primeiro casamento. Seu nascimento marca a morte da mãe. O pai, viúvo e novo ainda, teve uma série de amores antes de se casar com uma jovem que lhe deu mais cinco filhos, entre eles essa tia à qual me refiro, mais particularmente. Ela era bem mais nova que vovó e quase da idade de minha mãe, que mesmo assim a chamava de 'tia' e se dirigia a ela como 'senhora', como convinha na educação antiga.
Uma vez, ainda pequena, entrei na cozinha de vovó de mansinho. As mulheres mais velhas estavam conversando baixinho - sinal de que o assunto era grave - e aquela tia chorava copiosamente apoiando a cabeça na dobra do braço, sobre a enorme mesa da casa mineira. Agnaldo Rayol cantava Esmeralda numa vitrola. As mulheres ouviam em silêncio e tinham os olhos cheios de lágrimas. Uma delas passava a mão nas costas da tia. E eu montei a história da nossa Julieta com os retalhos das conversas que ouvi, sentadinha na escada.
Quando moça, aquela tia viveu uma paixão correspondida, mas não aceita pela família. Nisso apareceu um libanês baixinho, gordinho e rico na parada. Foi dada em casamento a ele. Chorava no casamento e todos pensavam que era de alegria. Tiveram três filhos, nunca foi muito bem aceita pelos cunhados, mas foi adorada pela sogra. Com o tempo – ela dizia –, tinha aprendido a amar o marido que era um cavalheiro, uma alma boa que acolheu na casa deles dois dos cinco irmãos e ajudou financeiramente um outro, enquanto pode. Sua fotografia de casamento ainda me impressiona: ela mais alta que o noivo, lado a lado, sem se tocarem. Ela, com braço esquerdo ao longo do corpo, buquê sustentado pelo braço direito dobrado na frente da barriga, olhar perdido no nada, maior desalento. Ele de bigodinho, com semblante alegre, olhando para um ponto também no infinito, mas muito perto que o dela.
Naquele tempo não era comum falar desses assuntos, embora fosse frequente alguém se casar com outro - ou outra - que não seu grande amor. Naquele tempo não se desfazia casamento por um quase nada: só a morte tinha tal poder. Naquele tempo era comum viver um amor platônico da mocidade ao túmulo. Naquele tempo a conveniência era mais forte que o sonho. Naquele tempo - que felizmente acabou e ficou para trás - desejos pessoais eram sufocados em nome da perpetuidade da tradição.
Com a morte da tia, as lembranças voltaram, como voltou a ser importante eu querer respostas para duas recorrentes perguntas. Mesmo que não as consiga, vou teimar em pensar nelas: a vida imita a arte ou é a arte que copia a vida? E a tia: se tivesse se casado com seu grande amor, teria sido feliz ou infeliz? Se há alguma chance de obter uma resposta, certamente não será a da segunda questão.
AMORES & PAIXÕES
Há leituras que tiram o sono; há, também, algumas outras que fazem sonhar. Orgulho e Preconceito de Jane Austen; Casais, de Martha Medeiros; Paixões, de Rosa Montero, a trilogia As mais belas histórias da Antiguidade Clássica, de Gustav Schwab, de onde volta e meia pinço uma história romântica, de arrepiar os pelos do braço e encolher os da nuca, envolvendo deuses da mitologia grega. Três dicas de leitura, das boas, que casam bem com os domingos frios e românticos destes três fascinantes meses do ano.
'Vestida de noiva, com véu e grinalda/ lá vai Esmeralda casar na igreja/ Deus queira que os anjos não cantem pra ela/ e lá na capela, seu Vigário não esteja/ Deus queira que à noite, na hora da festa/ não tenha orquestra, não tenha ninguém/ pra ver Esmeralda, com véu e grinalda/ nos braços de outro que não é seu bem/ Quem devia casar com ela/ era eu, sim senhor/ Quem devia casar com ela/ era eu, seu amor' (Filadelfo Nunes e Fernando Barros).
Maio é tradicionalmente conhecido como mês das noivas, mas dezembro se tornou o queridinho delas, seguido de perto por setembro, alçado a segundo mês na preferência dos casais. Maio recebeu o título por influência da Igreja Católica: é o mês da consagração de Maria, mãe de Cristo; e das Mães, no seu segundo domingo. A preferência por dezembro tem razões que envolvem dinheiro: abonos extras, 13º salário e férias além de transcorrer num clima de festas e de alegria. Setembro ganha no romantismo, com a chegada da Primavera. Na verdade há casamentos o ano todo e eles só diminuem quando chega agosto: todos temem o cachorro louco, fica no Inverno e, na Idade Média era o mês do celibato. Em cada 100 cerimônias, apenas 4 são realizadas nessa data. Os dados são do IBGE.
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