A pressão de enfrentar o mercado de trabalho, o desespero com o desemprego, a necessidade de ter dupla jornada, o sofrimento vivido por desilusões amorosas ou o medo da solidão. Problemas que são agravados pelo estresse diário, aliados à pré-disposição de procurar refúgio no álcool faz o consumo de bebidas alcoólicas crescer entre as mulheres de Franca. O reflexo começa a ser percebido nas instituições que oferecem tratamento para o público feminino que não consegue se livrar do vício por conta própria.
Na rede pública, a procura por atendimento no Capsad (Centro de Atendimento Psicossocial para Tratamento de Álcool e outras Drogas) mais que dobrou no último ano. Ao longo de 2008, oito mulheres frequentaram os grupos de atendimento. Só nos cinco primeiros meses deste ano, a entidade já atendeu a 20 usuárias que querem lutar contra o alcoolismo; um crescimento de mais de 150%. O índice é maior do que o aumento médio registrado em todo Estado de São Paulo no mesmo período. O crescimento na procura pelos Capss paulistas foi de quase 46%.
A coordenadora do Capsad em Franca, Sirlene Barreto, credita o aumento à maior liberdade para procurar tratamento. “Antes o alcoolismo era visto como falta de vergonha. Hoje é visto como uma doença. Com a maior divulgação dos tratamentos e menos preconceito, elas decidem buscar ajuda, estão menos envergonhadas”, disse. Maurício Maniglia, coordenador da Amafem (Associação Mão Amiga de Amparo Feminino), tem opinião semelhante, mas além da maior liberdade para procurarem ajuda, percebe um aumento real no consumo de bebidas pelas mulheres. Maurício associa a mudança de comportamento à conquista feminina no mercado de trabalho. “A permissividade está maior. Antes uma mulher beber era algo constrangedor, hoje não, é normal”.
Na Amafem, durante todo ano de 2009, cinco mulheres alcoólatras foram internadas para tratamento. As internações até maio deste ano já superam as entradas registradas ao longo de todo ano passado. Sete dependentes de álcool foram internadas nesses cinco primeiros meses de 2010. “Não tenho estatísticas, mas recebo muitas ligações de pessoas pedindo ajuda para lidar com a dependência ou com a dependente de álcool. Por isso percebo o consumo maior. Muitos tabus também estão sendo quebrados. As pessoas não esperam mais chegar a um ponto deplorável para buscarem tratamento, procuram antes”, disse Maurício.
A auxiliar de produção RS, 32, é uma das 18 internas na Amafem. Começou a beber porque não aceitava o fim do casamento. “Estava com três filhos pequenos e não me conformava com a separação. Comecei na cerveja e depois passei para a pinga”. Procurou ajuda depois de quase perder a guarda dos três filhos. Teve apoio da família.
No Hospital Psiquiátrico Allan Kardec, a assistente social Lázara Batista, que está há 15 anos na instituição, atesta o crescimento da dependência entre mulheres desde 2008. “Recebemos em média cinco mulheres para internação por mês por causa do alcoolismo. Antes era um índice bem menor. Percebo que o desemprego é o maior fator para se tornarem dependentes. Estão todas em idade de trabalho, entre 20 e 55 anos”.
O crescimento do alcoolismo feminino incentivou o Creas (Centro de Referência Especializado de Assistência Social) e o AA (Alcoólicos Anônimos) a criarem, em dezembro de 2009, um grupo específico para mulheres. As reuniões acontecem todas as terças-feiras, às 19h30, na Avenida Major Nicácio, 1303. O grupo ainda pequeno, formado por cinco mulheres que frequentam os encontros, tende a crescer na opinião dos responsáveis pelo AA.
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