“Escolhemos incessantemente, e incessantemente deixamos mil
opções possíveis atrás de nós.
O caminho que sulcamos no tempo está juncado das ruínas de nossos amores embrionários e de tudo
aquilo que poderíamos
ter nos tornado”
J.D. Nasio
Não sabia que nesse dia morreria. E não é que obscuramente assim o desejasse. Temia, aliás, a morte, embora a cronicidade na velocidade no carro, do cigarro na boca, do uísque no copo, “para o sabor”, dizia.
Despertara vivo, logo pela manhã, de uma maneira tal como há muito não ocorria. Tão ironicamente vivo, mais do que nunca, exatamente no dia de sua morte.
A noite que o trouxera até aqui ele passara ouvindo músicas, arremetido em seu passado. E até chegara a pensar nesse dualismo vida-morte que nos perpassa todos os dias: cabelos que caem, os contratos estabelecidos com um corpo frágil que acaba por não os suportar, nos obrigando a desfazê-los ao longo da caminhada, o fôlego sem alcance para o numeroso do que vem de dentro.
Pensara na solidez de uma obra que podemos erigir e que, no entanto, não sustenta a vida além do que ela própria determina. A delicadeza da carne batida de viver. O brevíssimo e impermanente período que compartilhamos nesse sem tempo de agora.
Horror, nele, era ver-se refletido agora por espelho, numa imagem que o insultava, que não reconhecia como sua. Não, sua alma não pesava tanto quanto a visagem opaca naquele cristal perverso que não filtrava mensagem alguma. A dureza do real.
Como se o tempo não tivesse passado, como se ao longo dos últimos anos não tivesse verdadeiramente se visto, de repente, o susto, principalmente no olhar. Não apenas cansado, mas cético, aturado. Sobressaltava-se com a degenerescência das linhas ainda aparentes que o construiam quase belo na juventude.
Sabia ele, realisticamente, não possuir mais tempo para a diversidade caudalosa de tudo o que desejava: enfrentar de novo uma faculdade pesada, Medicina, talvez, ao 40 anos, filhos e casa para manter. Ou abandonar a gravata sufocante para embrenhar-se inconsequente nos imperativos da aptidão artística que trazia calada em si: como gostava de saber que a história pudera engendrar um Gaudí, um Miró. Mesmo que todo resultado não ocorresse, ou viesse postumamente, sem garantias. Ou viajar. Girar o sem-tamanho do mundo. Visitar os florais de Grasse.
Palmilhar, beduíno, a secura dos Emirados. Enlamear-se em Goa. As cores da Cidade do México. Mikonos, a cidade branca-azul que precisava rever.Voar em balão com os filhos pelo Vale do Loire. Ele queria, João, muito.
Com afinco e perseverança, talvez até conseguisse um pouco de cada, mas teria obviamente de conceder-se a possibilidade de vivenciá-las por substituições, quem sabe. Não fosse a morte, da qual nem suspeitava, espreitando.
Havia um mundo todo, dentro e fora a ser explorado e, para o diâmetro de suas ambições, mil anos talvez não bastassem a esse homem que, sem o saber (e era mesmo melhor que não soubesse) só tinha adiante esse único dia.
Às dezoito horas dessa tarde, porque não tinha tempo a perder e porque algo muito intenso em si pulsava, arriscou uma ultrapassagem de moto numa rodovia movimentada, perdendo enfim a vida que tentara agarrar e todo o tempo à frente, esse que irremediavelmente lhe faltava.
Vanessa Maranha
Psicóloga, jornalista, escritora, autora de As Coisas da Vida e Cadernos Vermelhos
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