Jornada de trabalho reduzida, folgas aos sábados, indisponibilidade para horas extras... A lista de exigências cada vez maior dos candidatos a vagas de emprego, além das habituais divergências entre salário oferecido e salário pretendido, tem emperrado o trabalho no setor de Recursos Humanos das empresas. Sem conseguir atender aos desejos, elas chegam a ficar meses com vagas em aberto. Os profissionais mais jovens e ainda iniciantes estão cada vez menos empenhados para conquistar uma melhor colocação e já querem entrar no mercado de trabalho em cargos de liderança.
O professor da Unifran (Universidade de Franca), Aécio Flávio Lemos, especialista em Administração e Recursos Humanos, disse que falta humildade aos candidatos. “O estudante ou executivo cria expectativas além do que deveria. Muitas vezes temos estudantes quartanistas que não se submetem a começar do princípio. Ou seja, querem entrar como diretor, gerente. Eles se auto-julgam muito bons e isso está errado”.
Para o especialista, muitas chances acabam desperdiçadas com esse tipo de postura. “Têm que aproveitar as oportunidades para poderem mostrar o potencial que possuem, mas querem começar em patamares altos enquanto não têm condições ou estavam num patamar mais alto em outra empresa e não têm humildade para assumir um menor”, disse Aécio.
Sílvia Barcelos, do departamento pessoal da J. Jacometi & Filhos, faz coro ao especialista. “Há pessoas que desistem da vaga por uma diferença de R$ 50 no salário que oferecemos e o que ela deseja. É preferível aceitar o emprego para mostrar a capacidade e poder ser valorizada”.
No GCN Comunicação, o alto grau de exigência dos candidatos tem dificultado a contratação de funcionários. Pelo menos dez vagas estão abertas, nove delas, desde janeiro. A empresa quer contratar editores, repórteres, atendentes, profissionais para os setores comercial e de assinaturas, além de estagiários.
Segundo Janaína Lucca, gerente de Recursos Humanos do GCN Comunicação, durante os dois últimos meses, o departamento de RH do GCN entrevistou 19 estudantes para a vaga de estágio no departamento jurídico. Só conseguiu contratar uma universitária na semana passada. “As pessoas não estão qualificadas, não estão dispostas a aprender e não têm comprometimento com o trabalho. Elas querem trabalhar poucas horas e receber um salário alto, mas não têm qualificação nem experiência para terem uma renda maior”, disse ela.
Os profissionais também não aceitam assumir cargos de menor grau. “Há chances de promoção na empresa conforme o empenho que tiverem, mas eles não querem começar de cargos mais baixos. Eles não têm paciência e a vaidade é muito grande. É preciso ter base para poder crescer”, disse Janaína.
Empresa do setor calçadista, a Calçados Turin vive o mesmo problema. Tem dificuldades para encontrar profissionais qualificados e, quando encontra, é obrigada a lidar com suas exigências. “A indústria de calçados vive sazonalidades e tem picos de produção, mas muitos empregados não têm disponibilidade para fazer hora extra quando a demanda de pedidos aumentar”, disse Daniela Viscondi, encarregada do departamento pessoal da empresa.
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