Ele não é vereador, quase nunca aparece, mas foi o personagem responsável por agitar os bastidores da Câmara Municipal de Franca nas três últimas semanas. Foi por causa dele que os parlamentares decidiram aprovar um pacote de medidas para tentar blindar o Poder Legislativo das críticas recebidas. Há 30 anos, Afonso Teodoro de Souza Filho, 50, trabalha na Câmara Municipal de Franca, onde ocupa o cargo de diretor-administrativo. Bacharel em Administração de Empresas e em Ciências Contábeis, Afonso nasceu em Claraval (MG) e, ainda adolescente, mudou-se para Franca. Tido com um profundo conhecedor de leis, já perdeu as contas de quantos projetos elaborou na cidade. Participou da criação da Lei Orgânica do Município e de dois regimentos internos da Câmara. Em julho de 2007, foi homenageado com o título honorífico de cidadão francano em reconhecimento pelos serviços prestados. Na oportunidade, o vereador Jépy Pereira (PSDB) foi à tribuna e teceu calorosos elogios ao amigo. Hoje um simples encontro de ambos em uma padaria pode gerar faísca.
Afonso é contestado pelos vereadores do grupo de apoio ao prefeito por causa da assessoria que presta à Graciela Ambrósio (PP), principal opositora de Sidnei Rocha (PSDB). A relação que andava estremecida, desandou de vez no dia 27 abril. Naquele dia, foi publicado o decreto estabelecendo que as sessões começariam às 9 horas. Apenas Graciela e os repórteres chegaram à Câmara na hora marcada. O diretor foi acusado por Jépy de ter avisado a vereadora e os repórteres da mudança, supostamente, para prejudicá-lo.
A reação não demorou. Na terça-feira, os vereadores aprovaram projeto limitando as funções do diretor e proibindo qualquer servidor de prestar informações da Câmara sob pena de cometimento de falta grave. Uma ofensiva interna foi feita, com apreensão do computador de Afonso e fiscalização nas ligações telefônicas que fez e nas imagens do circuito interno de TV para certificar se ele havia informado sobre a publicação do decreto.
Calado na Câmara, Afonso Teodoro abriu o jogo e falou sobre os bastidores do Legislativo nesta entrevista.
Comércio -Por que você passou a ser tão criticado pelos vereadores nos últimos dias?
Afonso Teodoro - É muito simples. Porque tenho procurado combater e ajudar a combater algumas situações na Câmara. Às vezes as nossas posições contrariam interesses de outras pessoas, que acabam reagindo. Mas também fui e sou elogiado em meu trabalho por vários vereadores, inclusive, publicamente.
Comércio - Que situações são estas que você tenta combater e causam tanto incômodo?
Afonso Teodoro - A que posso citar é a concessão de promoções a funcionários com problemas administrativos e disciplinares.
Comércio - O fato de você prestar assessoria à vereadora Graciela Ambrósio (PP) também não teria provocado a reação da terça-feira, quando foram aprovadas várias mudanças. O que pode falar a respeito?
Afonso Teodoro - Tenho a honra de assessorar a vereadora Graciela. Ela também me prestigia confiando em meu trabalho. Presto assessoria técnica e não política. O trabalho que faço para a vereadora Graciela também já fiz para vários outros vereadores. Alguns fazem parte da Câmara atual. Cada vereador tem o funcionário de sua preferência na Câmara. Tem até assessor da Prefeitura que orienta alguns aqui no Legislativo. A doutora Graciela foi apresentada a mim por um outro vereador que recomendou o meu trabalho e deu boas referências. Ficam com implicância e ciumeira política dela. Vai aqui um trocadilho com a fala do presidente Lula: “Deixem a mulher trabalhar”.
Comércio - Qual vereador indicou seus trabalhos para a Graciela?
Afonso Teodoro - Foi o ex-vereador Luiz Carlos Fernandes. Prestei assessoria técnica para ele e tive o trabalho reconhecido. Inclusive, quando ele era o presidente da Câmara, fui nomeado o seu diretor-geral.
Comércio - Na legislatura atual, quem você já auxiliou?
Afonso Teodoro - Cito, por exemplo, o vereador Jépy Pereira (PSDB). Ajudei-o em atividades relacionadas ao cargo de vereador.
Comércio - Na sexta-feira, dia 7, os vereadores que integram a comissão de corregedoria apreenderam o seu computador. Você teve telefonemas rastreados e as imagens do circuito interno de TV foram requisitadas para ver se você manteve contato com jornalistas. Como avalia estas ações?
Afonso Teodoro - Estou tranqüilo. Não tenho nada a esconder. Eles estão tentando achar alguma coisa que possam usar contra mim. Mas é inútil. Não vão encontrar nada. No meu computador, só tem trabalho prestado para a Câmara e para os mais diversos vereadores. Tem muito trabalho armazenado lá dentro. É só o que vão encontrar. Quanto à apreensão do computador, foi arbitrária, pois não foi autorizada pelo presidente da Câmara. O computador foi retirado na minha ausência, após encerrar o expediente. Confiei o caso a um advogado. O fato me causou enormes constrangimentos e aborrecimentos, pois tenho de ficar dando explicações para as pessoas. Um vereador disse que vai periciar outros computadores, mas avisou antes, pelo rádio. Acho que eles deveriam agir com o mesmo rigor em outros casos da Câmara, muito mais graves do que “vazar” informação para a imprensa.
Comércio - Quais são estes casos graves?
Afonso Teodoro - Tivemos casos de conhecimento público que se tornaram alvo de investigação pela Promotoria de Justiça e que resultou, inclusive, em ação de improbidade administrativa. Me refiro ao caso do preenchimento das declarações de Imposto de Renda para particulares feito por um funcionário da Câmara durante o expediente.
Comércio - O Ministério Público também investiga acessos a sites indevidos por vereadores e assessores. Como diretor-administrativo, você tem conhecimento se a Corregedoria da Câmara abriu algum procedimento para apurar estes fatos?
Afonso Teodoro- Desconheço que tenha sido aberto algum procedimento.
Comércio - O estopim para a sua crise de relacionamento com os vereadores foi a publicação do decreto, no dia 27 de abril, que quebrava as sessões em dois períodos. Os parlamentares acusam você de ter passado informações privilegiadas a Graciela. Por isto, ela teria sido a única a chegar na hora certa.
Afonso Teodoro - As acusações são inverídicas. É pura imaginação deles. Tudo não passa de intriga. As informações que presto, quando solicitado, são informações técnicas e não políticas. Eu não sou político. Alguns tentam desarticular politicamente a vereadora que tem sido elogiada na sua atuação. Isso incomoda, melindra e mexe com os brios dos políticos. Esclareço que não fui acusado formalmente de nada. Apenas um vereador citou o meu nome e me acusou em uma entrevista ao Jornal da Noite, da Rádio Difusora. Esclareço que não tive participação nenhuma no episódio. Fui acusado injustamente. Alguém está irritado com as críticas da imprensa e com a vereadora e quer desforrar em mim, imaginando que estou por trás das situações que são criadas por eles próprios.
Comércio - Culpado ou não, o certo é que a Câmara aprovou uma reforma administrativa, terça-feira, que cortou seu poder.
Afonso Teodoro - Se o objetivo era me atingir, não conseguiram. Quem dera eu tivesse todo esse poder. Garanto que mudaria muita coisa na Câmara. Mas, infelizmente, a minha área de atuação é limitada. Houve remanejamento de três funcionários e de seus serviços que eram subordinados ao diretor administrativo. Na teoria, as mudanças restringem o acesso à informação e limitam minha assessoria aos vereadores. Continuarei trabalhando normalmente, fazendo o que sempre fiz, atendendo a todos e ajudando naquilo que puder. O Afonso está livre e poderá continuar colaborando com quem ele quiser. No que se refere à assessoria à vereadora Graciela, acho que não mudará nada, pois continuarei prestando a minha colaboração, se ela assim o desejar.
Comércio - Qual sua opinião sobre a limitação imposta pela Câmara à imprensa?
Afonso Teodoro - Sempre defendi o bom diálogo e o bom relacionamento da Câmara com os órgãos de comunicação. O trabalho da imprensa não pode ser cerceado.
Comércio - Os servidores da Câmara foram proibidos de darem informações sob pena de cometimento de falta grave. Pretende mudar algo em sua conduta?
Afonso Teodoro - Para mim, a situação não mudará nada, pois esta proibição não me serve, não me atinge. Não costumo passar informações. Continuarei conversando normalmente com os repórteres, que são meus amigos, por quem tenho grande admiração e respeito.
Comércio - Você trabalha no Poder Legislativo há 30 anos e conviveu de perto com mais de cem vereadores. Como avalia o desempenho da atual Câmara?
Afonso Teodoro - A população espera muito mais. Não concordo com a conversa de que o campo de atuação do vereador é limitado, que ele não pode fazer quase nada. Isso é menosprezar o papel do vereador. Falta mais fiscalização do Executivo, mais debates de temas relevantes, maior envolvimento da população. A proposta orçamentária, por exemplo, deveria ser melhor explorada pelos vereadores, com maior prazo, pois é uma das principais matérias que passam pela Câmara. É a única hora em que os vereadores podem legislar sobre as finanças do Município.
Comércio - Qual vereador você não convidaria hoje para um almoço ou para tomar um café?
Afonso Teodoro - Tomo café, normalmente, com todos. Não haveria restrição.
Comércio - Até com o Jépy Pereira (PSDB)?
Afonso Teodoro - (depois de pensar por alguns segundo) Não.
Comércio - Sem contar a Graciela, de qual vereador você destacaria o trabalho?
Afonso Teodoro - Prefiro não citar nomes para não melindrar e para preservar as boas amizades e bons relacionamentos na Câmara.
Comércio - Você já pensou em mudar de lado? Em se candidatar ao cargo de vereador?
Afonso Teodoro - Não tenho pretensões políticas. Em outras oportunidades, fui convidado a me filiar para me candidatar, mas não aceitei. Minha área é o trabalho funcional na Câmara. Não sou filiado a partidos políticos.
Comércio - Você que conhece tão bem os bastidores da Câmara, qual é a receita para ser um bom vereador?
Afonso Teodoro- A receita é simples: Ser coerente, justo, firme e confiante nas suas posições para não ficar desacreditado. Geralmente o vereador que mais incomoda é o que mais se destaca. Vereadores considerados “chatos” e “pegadores no pé” são os que se promovem politicamente. Vereadores que já se enquadraram neste perfil alcançaram projeção política e foram eleitos para prefeito e para deputado. Eram os mais ferrenhos opositores da administração da época.
Comércio - A nova sede da Câmara custará R$ 3 milhões. Qual sua opinião sobre o investimento ?
Afonso Teodoro - A construção do novo prédio é um sonho do presidente da Câmara, Joaquim Pereira Ribeiro, que se torna realidade. Foi um ato de coragem, pois é uma obra polêmica. Não tem luxo, mas oferece conforto para os usuários e para o público em geral. Esperamos que o novo prédio seja o marco de uma nova era para a Câmara Municipal e que se ela saia da “sombra” do Executivo, embora a independência não esteja na distância física que separa os dois poderes, mas na mentalidade dos políticos.
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