O passeio foi decidido, assim, num repente de emoção, talvez de saudade.
Que bons ventos nos teriam soprado essa idéia?
A natureza começava a desfazer-se do muito verde e das muitas águas, e a desfilar laranjas e ocres e âmbares. Despia-se do verão e vestia-se de outono, como o céu se despe do dia para vestir-se de crepúsculo. As folhas, as nuvens, o azul... douravam-se, prenunciando o longo período de reflexão que sempre sucede púrpuras despedidas e antecede claras (ou nebulosas) chegadas.
Nada é novo, contudo, nada é monótono. Enquanto a enorme pupila da tarde chora luz e sangue, vastas paineiras formam poéticas ilhas cor-de-rosa na paisagem de beira de estrada.
Chegando ao destino, a mesma rua e os mesmos gramados sob flamboyants de grandes copas abertas nos recebem, em aconchego maternal.
Vejo a casa. Na varanda, os bougainvilles continuam floridos, mas as janelas se abrem para outro tempo.
Lá está o pé de mussaenda-rosa que, numa noite fresca, minhas mãos confiantes depositaram na terra, e regaram, dia após dia, e que meus olhos e meu coração ansiosos acompanharam, à espera da primeira flor. Lá está o coqueirinho que trouxemos do litoral, e que nunca chegou a nos oferecer seus frutos; e o mamoeiro de muitos galhos, fonte contínua de polpa docinha, servida, às fatias, no café da manhã. A mangueira, de tantas histórias, é a mesma que mamãe e eu costumávamos visitar, após o almoço, ou à tardezinha, para colher sombra e mel.
E lá está mamãe! na varanda, à espera... Nas mãos, a agulha tece a linha, sempre muito branca, em nova e delicada trama. Em seus lábios e olhos, desenha-se, à nossa chegada, um sorriso que ilumina a tarde. A seus pés, a cadelinha Tootsie, um dia trazida às nossas vidas para ficar, dormita, tranquila.
Corro até elas, mas a brisa da noite já perpassa a casa e a varanda, levando consigo a luz e o sorriso e a delicada trama em linha muito branca... Levando consigo parte de minha vida e de minha história que, agora, tece o outono em brancos fios de saudade.
Eny Miranda
Médica, poeta e cronista
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