Diário de bordo (X)


| Tempo de leitura: 2 min

Olhos cegos de imensidão
Perco-me no sorvedouro de sensações
Encapeladas no meu sangue
Cheio de céu.

Olho o mar
Boca fluida engolindo o sol
E a luminosidade se refratando agônica
Nas entranhas ávidas das águas
 
Olho o mar
Oferecendo ao céu
Seu canto de sereia
E a luz fremente
Que se divide em mil lampejos
 
Olho o mar
Alma e porta do mundo
Útero da Terra
Pia batismal de sonhos
Pátena de desejos
Cofre de possíveis
Grito de palavras impossíveis
 Poesia
 
Olho o mar
O que vejo
O quanto vejo
O que se insinua ali
E já não é senão arrepio?
Busca de olhares precisos
Para mostrar tantos possíveis?
 
Olho o mar
Vejo passos azuis
E a voz do vento
Sussurrando asas líquidas
Vejo o passado dançando alegre
A majestade da Vida
Vejo rios de palavras
Cantando glória
Aos homens nas alturas
E Deus em terras céus e homens
Vejo um imperceptível pulsar
Todo célula
Infinitamente célula
Célula infinitamente
 
Olho o mar
Busco quantos olhos de lá
Observam meu olhar
Olhos que sei e sinto
A cada canto a cada eco
A cada porta
Tantas portas desse mar
Que ainda tenho por passar!
Tantas cores desse espectro
Aguardam ainda meu sonhar!
Cheiro o mar

Qual o cheiro do mar
Querem saber meus sentidos
Cheiro de vôo de gaivota
De sonho
De horizonte
De além
De semente no seio da terra
De medo
De dor
De desejo
De amor
De Poesia
Cheiro de elo perdido
Entre o homem e Deus
Cheiro de Vida
Cheiro de Beleza
Que a alma humana esqueceu
 
Cheiro o mar
Água, sal, sol, céu e ar
Dizem todos os odores
E tudo cheira azul
Afinal
 
Gosto do mar
Gosto o mar
Dele alimento meus desejos
De suas doces águas salgadas
Sacio minha infinita sede
Águas ditas e benditas
Rumino histórias e História
Concilio tempo e Tempo
Sei a morte e a vida

Ouço o mar
Meu coração o acompanha
No seu canto abismal
No seu silêncio de mortos
Na sua voz de tempo
No seu dizer-se mar
 
Sonho o mar
Tem gosto de maresia o meu sonhar
 
Por mais que tente
Não vejo
Não ouço
Não sei o mar
 
Então digo o mar
Com todos os rios
Que para ele correm
Com todos os sonhos
 Que o percorrem
Com todas as lágrimas saudosas
São palavras azuis cor de além
Com raios de sal, luz e silêncio
Gravadas no espaço infinito
Entre a voz das águas e o amar.

Quero ver o mar
O mar dos olhos da cega no convés
O mar que lhe dizem
E que a ela se diz
Sou o mar
 
Quero saber o mar
O mar que brota das mãos de Deus
E molda o mundo antes de ser
 
Quero ouvir o mar
O mar que ruge o eterno
No silêncio da Poesia
E alaga corações
Que não se dizem
 
Quero beber o mar
O mar que me acena doçuras
E serve sal para me curar
 
Quero dizer o mar
O mar que me percorre, acaricia e açoita
O Mar da mente de Deus
Mas, muda de humanidade e de palavras,
Digo, triste, o mar que olho
O mar que penso ver.
Humilde, cumpro minha sina: 
Visto de mar o Mar que sinto.
 
 
Regina Helena Bastianini
Professora, poeta  autora de  Eu e o  mundo (1990), Entrenós (2003), Contraponto (2006)

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