Quem reza pelas vítimas?


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Até que ponto a solidariedade pode ser considerada manifestação legítima de crença na inocência de um em detrimento da culpa de outros se a investigação policial e, já agora a justiça, estão colocando no status de vítimas os segundos? É um questionamento que tem sido feito diante da missa celebrada ontem como um ato de desagravo de um grupo de amigos ao padre Afonso Dé, afastado por seus superiores e indiciado por estupro contra meninos entre 12 e 16 anos, coroinhas ou interessados em abraçar o sacerdócio. As suspeitas que evoluíram para as denúncias das vítimas, culminaram com processo já instaurado pelo Poder Judiciário.


De lá para cá, descobriu-se que padre Dé, figura emblemática do catolicismo em Franca, tinha se tornado suspeito das mesmas práticas em cidades do Paraná e de Minas Gerais, onde também militou.


A realização de uma missa de Ação de Graças ‘pela libertação do sacerdote’, oficiada na tarde de ontem na Paróquia São Vicente de Paulo, no jardim Tropical (onde o padre era pároco e cujos coroinhas o acusam por estupro) chegou a causar estranhamento em leitores do Comércio e ouvintes da rádio Difusora, que se posicionaram contra a atitude destes ‘fiéis amigos’ do padre. Afinal, considerou a maioria, até agora não houve nenhum movimento para externar solidariedade às vítimas do religioso.


Não há nada que impeça um grupo de pessoas de se reunir para rezar em favor de quaisquer pessoa, fato ou situação. Mas o que chama a atenção no momento é que até agora as vítimas não receberam demonstrações públicas de apoio ou compaixão. Continuam enfrentando o seu calvário com uma boa dose de coragem, a qual permite que mantenham as acusações contra um sacerdote que, em que pese a gravidade dos fatos que o envolvem, continua recebendo solidariedade e apoio de grupos de amigos.


Tem ficado claro que as vítimas do padre contam apenas com a própria coragem e o apoio de familiares. Até agora lhes faltou a compaixão explícita da comunidade, que mantém um mutismo inexplicável, no mesmo momento em que o próprio papa Bento XVI declara que a Igreja Católica Apostólica Romana precisa reconhecer e expurgar os seus próprios pecados, referindo-se aos atos de padres denunciados em diversas partes do mundo por pedofilia. Peças frágeis desta equação, estes garotos mereceriam que todos os francanos (católicos ou não) canalizassem suas atenções e - por que não? - as suas orações. A pergunta perturba: quem reza pelos abusados? Haverá alguma resposta clara, honesta e convincente?

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