Uma das netas desde pequena mostrou estranha predileção por animais domésticos, especialmente cachorros. Digo estranha porque sua mãe, sem ser indiferente, não é lá muito chegada e o pai, sem ter sido estimulado por sua própria mãe, segue a filosofia do 'não maltrata, mas não afaga'.
Como filhos têm quase por obrigação discordar dos pais, a menina adora. Bem pequenininha teve o Júlio: assim o chamou em homenagem à personagem do Cocoricó. Mais recentemente, ganhou o Totó, nome escolhido por causa do cachorrinho de Dorothy do Mágico de Oz, filme que volta e meia assiste. (Em plena era de Hannah Montana, difícil entender a cabeça de uma menininha de seis anos apaixonada por Judy Garland!).
Pois bem. Há dois anos Clara ganhou uma irmãzinha que precisou de cuidados especiais. Entre eles, ficar distante de pelos: cortinas, pelúcia, tapetes e animais. O que fazer? A coabitação com o bebê estava descartada, mas doá-lo faria sua pequena dona sofrer. Aí o pai das meninas sugeriu que ele viesse passar uns tempos na minha casa: alguns meses só, a conta de esperar Marina (o bebê) amadurecer um pouco.. Pois já se passaram dois anos e, claro, ele ainda está morando aqui. Marina está ótima e os pais continuam temendo o contato. Racionalmente julgamos que ele estaria bem melhor num lar onde fosse acolhido, paparicado: aqui há regras demais. Quase concordamos em que ele deve ir embora mas, quando Clara chega, diz um alô rapidinho e desaparece pelos corredores em busca dele, corre chamando seu nome, eu me sinto capaz de deixar o Totó dormir na minha cama se ela quiser! (O que os filhos nunca conseguiram, netos tem a capacidade e facilidade de obter). É. Ele vai ficar por aqui. Já decidi e já me conformei.
Sou incapaz de entender o amor por animais irracionais. Talvez essa dificuldade seja uma extensão da minha incapacidade de amar sem restrições. Amar para mim nunca foi verbo intransitivo mas quase sempre anômalo – extraordinariamente irregular em sua formação e conjugação. Não raro acreditei ser verbo de ligação – tal qual a definição, com função de unir predicativo ao sujeito. Porém, definitivamente, classifico-o como verbo defectivo: não consigo conjugá-lo em todos os tempos e jamais acreditei que tivesse todas as pessoas. Mesmo vendo minha neta acarinhar o bichinho, abraçá-lo com paixão, o máximo que consigo é fazer nele um rápido cafuné. Se vem com aquele focinho molhado me cheirar, arrepio de nojo. Se se enrosca nas minhas pernas, meu couro encolhe. Mas há quem, como Clara, os ame. Incondicionalmente. E muito.
Há um grupo em Franca que cuida de cães e gatos abandonados. Não recebe verbas, bolsas, nem subsídios de espécie alguma para se manter. Conta com doações de particulares para suas ações. Formado por um grupo de voluntários que dão de si algum tempo e muito dinheiro para cuidar e encaminhar bichinhos desabrigados, abandonados e desprotegidos, mantém-se por pura abnegação e desprendimento dos seus associados, que nem carteirinha possuem. São vistos, nos finais de semana, em praças públicas e em frente a estabelecimentos comerciais, quando os proprietários permitem.
Já os vi atuando. São conhecidos, anônimos, há estudantes entre eles. Nenhum deles se importa com o peculiar cheiro dos animais. Qualquer um retira o jornal sujo que forra os engradados. Ficam o tempo todo observando se há água e comida para eles. Às vezes um se levanta, vai até o cercado, afaga a cabeça do animalzinho, ri das brincadeiras entre eles, que mais parece uma briga. Quando termina o turno recolhem tudo, comentam detalhes dos acontecimentos e nunca podem prever o que acontecerá, até que a próxima feira seja realizada. Mantêm a esperança de que conseguirão que todos os animais abandonados serão abrigados e protegidos.
A somatória de fatores provocará grandes mudanças por aqui, desconfio. Tudo aponta para um certo amolecimento do meu empedernido coração. Pressinto que em breve Clara vai descobrir a Cão que Mia. Aí vai querer adotar temporariamente os animaizinhos desabrigados. Aí vai pedir espaço para trazê-los. Aí não vou ser capaz de dizer não. Aí o provisório vai virar definitivo. Aí serei obrigada a me resignar. Já me vejo cercada de cachorros. Já escuto a risada gostosa dela, rindo da situação. Já sinto uma lambida molhada na minha canela. Conformada, já não sinto tanto nojo. E aí percebo que, pelo menos no sonho, me tornei uma pessoa melhor.
ASPAS
'Quando o homem aprender a respeitar até o menor ser da criação - seja animal ou vegetal - ninguém precisará ensiná-lo a amar seu semelhante". (Albert Schweitzer).
AJUDA
O Grupo de Ajuda a Animais Abandonados Cão que Mia não é ONG. É um grupo de pessoas que doam tempo e dinheiro para cuidar dos bichinhos. Tem por objetivo encontrar um lar para cães e gatos abandonados – daí realizarem uma feira semanal de doação. No grupo há veterinários, donas de casa, profissionais liberais de diferentes áreas. Em comum, o traço do amor e respeito pelos animais.
AJUDA
Todos podem ajudar com doações: de tempo; de espaços para abrigar provisoriamente cadelas e gatas com crias; na feira, preenchendo fichas, informando os visitantes. Ou doando ração: gastam 100 quilos por dia, 3 toneladas por mês; remédios, jornais; materiais de limpeza, comedouros e até comprando os produtos que promovem o grupo, como chaveiros e camisetas.
Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br
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