Reconhecimento que conforta


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Finalmente, o papa Bento XVI falou. Assumindo uma postura diametralmente oposta à adotada por membros da Igreja Católica Apostólica Romana nos últimos tempos, Bento XVI admitiu, em entrevista ainda dentro do avião que o levava para Portugal (onde fica até sexta-feira), que os abusos sexuais contra crianças por sacerdotes devem fazer com que a Igreja reconheça a terrível verdade: ‘a maior ameaça à Igreja vem de seus próprios pecados’.


Bastante criticado por não ter externado a posição do Vaticano diante de denúncias crescentes, o Sumo Pontífice surpreendeu com suas declarações e, desta forma, dá a volta por cima no laconismo com que tratou o assunto . Ao verbalizar o problema e reconhecer a culpa dos próprios sacerdotes ganha a confiança dos que andavam indignados com seu mutismo. Nos últimos meses, várias autoridades da Igreja Católica (inclusive aqui no Brasil) tentaram catalogar os fatos irrefutáveis como criação de veículos de comunicação e ‘inimigos do catolicismo’.


Em alguns dos comentários mais abrangentes desde que o escândalo de pedofilia estourou, há dois meses, Bento XVI disse aos jornalistas que cobrem sua visita a Portugal, especialmente ao Santuário de Fátima, que a Igreja tem uma ‘necessidade muito profunda’ de reconhecer que deve fazer penitência por seus pecados e aceitar a purificação. Mostrou-se digno de consideração, como toda pessoa que reconhece seus erros e se propõe a repará-los. Como líder religioso, exorta a própria instituição a buscar corrigir suas graves faltas. Tentar ignorar o fato e olhar para outro lado nunca foi a melhor opção: o sol vaza a peneira, o corpo do avestruz fica todo de fora. Demonstrando inteligência, o papa coloca o dedo na ferida e já se prepara para buscar o curativo que possa permitir a completa cicatrização. Entendeu, ainda a tempo, que tampar um tecido ferido sem o limpar pode representar início de processo de morte por putrefação.


Considerar as denúncias de pedofilia praticada por sacerdotes católicos como conspiração externa, desde o princípio, mostrou-se uma tática impossível de ser levada a sério. Bento XVI já havia demonstrado que sua atitude seria outra. Depois de divulgar carta pedindo desculpas a vítimas de sacerdotes pedófilos na Irlanda, encontrando-se ainda com algumas vítimas a quem pediu perdão, o papa ia deixando clara a sua intenção, agora claramente exteriorizada.


Ainda ontem, no avião, Bento XVI afirmou que a Igreja tem de pedir perdão às vítimas de abuso sexual, mas também reconheceu que o perdão ‘não pode ser um substituto para a justiça’. É uma posição de extrema responsabilidade, de quem reconhece que a Igreja precisa expurgar os seus pecados e os pecadores precisam ser punidos, concedendo às suas vítimas reparação também pelas vias da justiça humana. A partir das palavras de Bento XVI, é de se esperar que toda a comunidade católica faça sua reflexão, buscando soluções para tornar a Igreja mais transparente, colocando os seus problemas em debate. Não fingindo que eles não existem, nem desejando que a imprensa o faça.

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