‘Sonho agora em ver minha filha’


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CORAÇÃO DE MÃE - Na cozinha de sua casa, Maria Aparecida da Silva relembra as dificuldades vividas nos últimos quatro anos, desde que uma de suas filhas foi presa na África do Sul por tráfico internacional de drogas
CORAÇÃO DE MÃE - Na cozinha de sua casa, Maria Aparecida da Silva relembra as dificuldades vividas nos últimos quatro anos, desde que uma de suas filhas foi presa na África do Sul por tráfico internacional de drogas

A ex-cozinheira Maria Aparecida da Silva, de 49 anos, completados no dia 28 de abril, foi casada duas vezes. Dos dois relacionamentos, nasceram quatro filhos: Fabiana, 30, Priscila, 27, Tales, 22, e Isabela, 11. Quando a filha mais velha completou 26 anos, em 20 de outubro de 2005, Maria Aparecida queria fazer uma festa surpresa, mas precisou adiar os planos. Fabiana era cantora e integrante de uma banda da cidade que sempre fazia apresentações fora. A jovem disse que viajaria com o grupo no dia seguinte ao aniversário para se apresentar em Ituiutaba, Minas Gerais. Maria Aparecida acabou revelando à filha que faria uma festa surpresa, mas que, por causa da viagem, teria de cancelar a comemoração. Fabiana pediu para a mãe apenas adiar a data, pois em 15 dias estaria de volta a Franca. Mas o tempo prometido pela filha se transformou em mais de 50 meses. Somente agora, quatro anos e meio depois, Maria Aparecida tem chance de revê-la.


A jovem, que em 2005 tinha dois filhos com 5 e 4 anos e estava grávida de poucos meses, aceitou ser “mula”, pessoa contratada para transportar drogas. Ingeriu cápsulas de cocaína e seguiu até São Paulo, de onde embarcou para a África do Sul, levando a encomenda. Receberia R$ 12 mil pelo serviço. Ao desembarcar no Aeroporto Internacional de Joanesburgo, foi flagrada com as drogas e presa. Acabou condenada a oito anos de prisão pelo governo sul africano. Sua filha caçula, Kimberlyn Victória, prestes a completar 4 anos, nasceu na cadeia.


Assim que soube que a filha estava atrás das grades, Maria Aparecida ficou desesperada. Ela não desconfiou que Fabiana estava envolvida com drogas. “Se soubesse faria de tudo para impedir, mesmo que, para isso, tivesse que amarrá-la em casa ou quebrar suas pernas”. Quando Kimberlyn estava com cinco meses, Fabiana conseguiu ajuda de um pastor e sua esposa que viajou da África até São Paulo para trazer a criança para ser criada pela avó em Franca. Nos últimos quatro anos e meio, Maria Aparecida enfrentou dificuldades. Deixou o emprego como cozinheira e doméstica e passou a viver em função dos netos e da filha que estava numa cadeia em outro continente. Desesperada com a situação, Maria Aparecida, por diversas vezes, pensou em se matar. Chegou a subir no último andar de um prédio, no Centro, para pular, mas não teve coragem. Desistiu porque percebeu que aumentaria o sofrimento dos outros três filhos e dos netos.


Além da distância da filha e das dificuldades para criar os netos, Maria Aparecida enfrentou muitas críticas. “Muitas pessoas me ajudaram, mas outras me crucificaram. Uma mulher falou que minha filha tinha que apodrecer na cadeia”.


Fabiana cumpriria oito anos de prisão, mas, por bom comportamento, conquistou a liberdade antes. Está livre da cadeia desde 19 de abril deste ano e prestes a ser deportada para o Brasil. Maria Aparecida aguarda a data do reencontro com ansiedade. Espera receber um abraço neste Dia das Mães pessoalmente. “É o presente que mais espero”.

 

Comércio da Franca- O que mudou na vida da senhora depois da prisão de sua filha?
Maria Aparecida da Silva -
Falo que minha filha ficou presa lá na cadeia da África e eu fiquei presa aqui em casa porque minha vida parou. A minha vida é cuidar dos filhos da Fabiana e dos meus filhos. Minha vida é em torno deles. Entrei em depressão, não saio de casa, não passeio, não vou a lugar algum, só fico aqui. Perdi muitos amigos e parentes. Pessoas que falavam que eram minhas amigas e nunca mais vieram à minha casa. Quando encontro na rua, noto que a pessoa sai de perto de mim, desvia o olhar e faz que não me viu, me ignora. Sei que é tudo por causa da história da Fabiana. Minha vida foi congelada.
 

Comércio - Antes de ela ser presa, como era a rotina da senhora?
Maria Aparecida -
Trabalhava em dois lugares. Numa fábrica e na casa do meu chefe (duas vezes por semana à noite e aos finais de semana). Fui cozinheira, vendedora, manicure, fazia bicos preparando bolos de aniversário e salgados para festa. Fui uma pessoa que não escolhia serviço. Sempre fui uma lutadora.
 

Comércio - Como foi a história da Fabiana?
Maria Aparecida -
Antes de viajar, ela disse que ia trabalhar em Ituiutaba com a banda que tinha. Eu estava acostumava porque ela sempre viajava, mas o máximo que ficava fora de casa era 15 dias. A última vez que encontrei a Fabiana foi dia 20 de outubro de 2005, antes de tudo acontecer. Quando fui me despedir, senti que tinha algo diferente. Ela me deu um CD e disse: “mãezinha, quando der vontade de ouvir minha voz, a senhora coloca esse CD”.
 

Comércio - Como a senhora soube que ela estava presa na África?
Maria Aparecida -
O ex-marido dela chegou na minha casa com uma cara estranha. Chamou minha menina no serviço dela, que era perto, e depois os dois voltaram para conversar comigo. A Priscila (filha) estava chorando muito. Ela perguntou se tinha tomado calmante e remédio da pressão, me deu um copo de água com açúcar e começou a contar. Imaginei que a Fabiana tinha levado um tiro, brigado, mas jamais que estava presa. Quando falaram que estava presa, pensei que conseguiria tirar minha filha logo da cadeia porque trabalhei em casa de delegado, advogado, juiz e conhecia muita gente. Aí a Priscila falou: “mãezinha, infelizmente, a senhora não pode fazer nada porque a Fabiana está presa na África do Sul”. Aí eu desmaiei. Para mim, naquela hora, acabou minha vida (começa a chorar).
 

Comércio - A senhora não desconfiou de nada? A Fabiana não deu nenhuma sinal de que iria para tão longe?
Maria Aparecida -
Não. Ela ajudava qualquer pessoa que aparecesse na porta da minha casa. Era trabalhadora, tinha um tanto de amizade. Quando falaram que tinha feito isso com as drogas, desabei porque não esperava isso dela. Se ela fosse uma filha bandida e traficante, como ela foi tachada, se ela fosse uma filha problemática, jamais queria que ela voltasse, mas era uma guerreira, uma pessoa firme, decidida e que tomava a frente das coisas.
 

Comércio - Por que a senhora acha que ela fez isso?
Maria Aparecida -
Ainda não conversei com ela sobre o que aconteceu. Eu e ela conversávamos muito pouquinho pelo telefone e não dá para saber de tudo. Quando falei com ela pela primeira vez na África, a primeira pergunta que fez era se eu perdoava o que ela tinha feito. E perdoei. Depois uma colega dela me falou que quando eles ofereceram para ela levar a droga, ela disse que levaria. Quando quis voltar atrás falando que não iria fazer aquilo mais, ela já tinha assinado um bendito de um papel que a obrigava a levar a droga. Parece que eles falaram que se não fizesse isso, eles sabiam onde ela morava e iam acabar com os filhos dela. Isso foi o que as pessoas falaram. A história verdadeira quero saber da boca dela quando ela voltar, porque nunca apoiei esse tipo de coisa, não apoio, não passo a mão na cabeça. Se soubesse que iria fazer isso, jamais teria deixado, nem que tivesse que quebrar as duas pernas dela ou amarrá-la em casa.
 

Comércio - Quando a senhora conseguiu falar com ela na África?
Maria Aparecida -
Ela ligou depois de um mês. Eu já estava desesperada, quase louca. Esse momento me marcou muito. A gente morava num sobrado e o telefone tocou às duas horas da manhã porque lá seria sete horas. No telefone, era um tradutor falando tudo enrolado que queria conversar com a dona Maria. Ele falou que pensou que a Fabiana fosse cega porque ela estava num canto, com os olhos fechados, sem abrir de jeito nenhum porque chorava demais. Ele pediu para a gente ligar no dia seguinte na África ao meio-dia que ele levaria o telefone na cela para a Fabiana. Nós ligamos neste horário, mas não lembramos que lá era horário diferente, então, não deu certo. Quando consegui falar, ela perguntou se tinha perdoado. Perdoei pela filha que ela era.
 

Comércio - Como a senhora estava nesta época?
Maria Aparecida -
Estava um trapo, só chorava, tomava calmante para dormir, saia para rua e não tinha hora para voltar. Muitas vezes fiquei de madrugada numa pracinha perto da minha casa olhando os galhos das árvores e pensando: “eu vou suicidar, vou dar um fim na minha vida porque não vou aguentar”. A saudade dela era grande demais. Pensei várias vezes em me matar, pular de uma ponte, de um prédio. Cheguei a subir num prédio que tem perto da Santa Casa, fui no último andar para tentar pular lá de cima porque é desesperador demais ficar sem ver a pessoa. Não estava nem pensando na minha família.
 

Comércio - O que a fez desistir de suicidar?
Maria Aparecida -
Na hora, parece que cai um balde de água na cabeça e você pensa nos filhos. Pensava em quem iria cuidar dos meus filhos, dos meus netos. A Jenifer, filha da Fabiana, ficou muito grudada em mim quando a mãe foi presa, como ela ia fazer se eu me matasse? Na hora, cai a ficha e a gente volta atrás. Peço perdão a Deus porque cheguei a pensar em me matar.
 

Comércio - Sem ser essa, qual a parte mais difícil nestes quatro anos?
Maria Aparecida -
Os domingos. Vou ao mercado fazer compra e chego lá pensando nas coisas que cada um dos meus filhos gostam porque um gosta de pão de queijo, o outro, de rosca. A Fabiana gosta de rosca e esquecia que não estava em casa e trazia as coisas de que ela gostava. Chegava aqui, lembrava que ela não estava, aí me batia aquela dor. Um dia que me machucou muito foi quando ela ligou e disse que estava com a boca cheia de feridas. Eles deixavam sem tomar água, com sede, para ver se comia porque ela não conseguia comer a comida de lá. O dia que ela falou que tinha vendido o cabelo dela foi difícil também. Ela tinha um xodó com o cabelo comprido, no meio das costas, todo encaracolado, mas teve que vender para comprar leite para a Kimberlyn.
 

Comércio - E o dia mais emocionante?
Maria Aparecida -
Foi quando ela falou que ia mandar a Kimberlyn para eu cuidar. Na carta, ela escreveu que estava mandando a nenê porque aqui tinha as coisas de comer para a menina (chora). A mulher que trouxe a Kimberlyn era nigeriana, mas antes de conhecê-la, não imaginava que era um anjo. Ela se chama Arlete. Um dia, se Deus quiser, hei de pagar essa mulher. Ela cuidou da Kimberlyn um mês na casa dela e depois trouxe até o Brasil. Não tinha lei que obrigava ela a trazer a Kimberlyn para a gente. E quando ela me entregou a nenê, segurou o choro e falou que não ia chorar porque a gente só chora quando morre alguém e a Kimberlyn estava vivendo, nascendo de novo. Foi muito emoção. Agora o dia mais emocionante será quando a Fabiana voltar.
 

Comércio - A senhora encontrou muitas “Arletes” nestes quatro anos?
Maria Aparecida -
Sim. Pessoas de outras cidades que nem me conheciam ligavam na minha casa para saber se estava precisando de alguma coisa porque queriam ajudar. Elas davam uma palavra amiga, queriam conhecer a Kimberlyn. A gente encontrou muitos anjos, mas fomos muito criticados também. Inclusive uma mulher falou para as pessoas não me ajudarem e que era para deixar minha filha apodrecer na cadeia. Só que ela não era uma bandida, não era uma traficante, ela se envolveu com pessoas erradas, na hora errada, talvez por dificuldades financeiras ou porque não pensou, não teve juízo ou foi uma fraqueza. Não vou falar que ela foi santa porque ela deveria ter pensado. Só que não vou julgar. Me fala qual mãe, com coração de mãe, tem coragem de deixar o filho apodrecer na cadeia.
 

Comércio - A Fabiana teve câncer na mama e na barriga. Como foi receber essa notícia?
Maria Aparecida -
Na época, só queria ver a Fabiana, falar com ela. Ela ficou uns 15 dias sem ligar. Quando ligou, percebi a voz dela fraca. Ela falou que estava no hospital porque estava com muita dor na barriga e no seio. Contou que eles tiveram que tirar um carocinho da barriga e do seio dela. Depois ela falou que estava com câncer. Só que na hora a ficha não caiu. Depois que ela desligou o telefone, desabei, entrei em desespero. Ela falava muito rápido comigo. Tinha dia que não durava nem dois minutos, então ela nem reclamava muito.
 

Comércio - A Fabiana foi condenada a 8 anos de prisão e ganhou liberdade antes por bom comportamento. Como a senhora se sente?
Maria Aparecida -
Até agora a ficha não caiu. Estou com minha casa preparada, esperando por ela. A casa está preparada, mas eu não estou não. Aumentei a dosagem de calmante, remédio da pressão, tomo chá e água doce toda hora. Não sei como vai ser esse encontro. É como se tivesse grávida e fosse ganhar nenê, me dá aquele frio na barriga. Vocês não fazem ideia da vontade que estou de vê-la. Não quero falar nada, quero só beijar e abraçar até não poder mais.
 

Comércio - Que mensagem a senhora deixa para mães que têm filhos envolvidos com drogas?
Maria Aparecida -
Sempre via mães chorando por filhos envolvidos com drogas e, às vezes, a gente pensa que só acontece na casa do vizinho, na casa dos outros. Sempre pensei no sofrimento dessas mães e hoje sei como é viver isso. Peço para as mães que têm filhos presos aqui no Brasil não se desesperarem porque aqui elas mandam roupas, comidas e cartas e tudo chega até eles. Para a Fabiana, só chegaram duas cartas de tantas que mandei nestes quatro anos e meio porque na África eles não entregavam para ela.
 

Comércio - O que sonha para o futuro da Fabiana?
Maria Aparecida -
Ela fala que vai comprar um apartamento para ela e os filhos dela, que vai fazer doces que aprendeu lá e que deve ter muita saída aqui no Brasil. Ela fala em trabalhar muito. Acho que vai se dedicar muito aos filhos para recuperar o tempo que ficou presa.
 

Comércio - E para o da senhora?
Maria Aparecida -
Não sei. Sonho agora em ver minha filha. Não sei como vai ser minha vida.

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