Jogando para a torcida


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A queda de braço travada pelo governo e pela oposição na questão do reajuste dos benefícios para aposentados ultrapassa qualquer debate eleitoral. Antes de tudo, deve-se ressaltar a responsabilidade que se deve ter com a administração da coisa pública e com o dinheiro do contribuinte. E, neste momento, não é hora de jogar para a torcida e sim atuar solidariamente, em favor de todo o grupo, como se diz no jargão esportivo.


O reajuste de 7,71%, convenhamos, está abaixo do ideal. Mas está acima do possível. A Câmara dos Deputados não quis assumir o ônus de barrar o índice já considerado irreal pelo Planalto, pois sabe de antemão que o Senado também deve aprovar o índice. Para o governo, até 7% seria de bom tamanho, mas em ano eleitoral nem deputados (a matéria só não teve aprovação unânime na Câmara porque um parlamentar se enganou ao apertar os botões) e muito menos senadores querem ser apontados como os vilões. Fica a decisão para o presidente Lula, que deve barrar o aumento, como ele próprio já antecipou.


Embora os números sejam diferentes para governo e oposição, o reajuste aprovado pela Câmara (aliado ao fim do fator previdenciário) vai aumentar o rombo da Previdência Social, que deve atingir R$ 50 bilhões neste ano (sem aumento). Na projeção mais otimista, da oposição, as duas medidas devem inflar o déficit em R$ 10 bilhões. Já o Planalto estima que o buraco possa crescer em R$ 15 bi. Sem condições de reduzir o déficit, que cresce ano a ano, a Previdência (e, consequentemente, os aposentados) não deve mais ser utilizada como elemento de manipulação em ano eleitoral.


O presidente Lula só conseguiu levar o País ao ‘momento virtuoso’ que tanto apregoa por conta da responsabilidade com que comandou a política econômica, enterrando o discurso que seu partido sempre defendeu quando na oposição. Não dá para fazer a festa com o dinheiro alheio. E o veto ao reajuste será a saída mais responsável diante da conjuntura que envolve a Previdência Social brasileira. Embora o sistema mereça uma profunda revisão para que consiga se gerir, acabando com o rombo bilionário e contemplando a grande maioria dos seus beneficiários com um salário mais digno, não são decisões como um reajuste impossível que irão recuperar o sistema. Claro que o que o País gostaria é que o presidente Lula mantivesse a postura de agora em outros episódios emblemáticos da vida nacional recente. Tivesse ele uma postura firme e corajosa no caso do mensalão, dos aloprados, dos dólares na cueca, nas acusações contra seus aliados políticos como Renan Calheiros e José Sarney, além de vários outros episódios, certamente passaria à história como um grande presidente.


A responsabilidade, que deveria nortear muitas das decisões tomadas em nosso País, continua sendo necessária para evitar um dano irreparável. Que a grande maioria dos aposentados e pensionistas ganha muito aquém do que merece e precisa, todos já sabem. Mas não é com uma canetada exibicionista que se conseguirá recompor a sua renda. Uma revisão estrutural no sistema previdenciário deveria ser um dos caminhos.

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