Ainda existem neanderthais


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Ouvi, ontem, pronunciado pela presidente do Conselho de Administração deste GCN Comunicação, Sônia Machiaveli, conceito de rara percepção: "mesmo evoluindo  tecnologicamente, o ser humano não consegue acertar-se emocionalmente”.

 

Debatíamos, editores dos vários cadernos deste Comércio, a milenar viagem dos humanos neste planetinha/poeira cósmica, estimulados pela publicação, também ontem, pela revista Science, dos resultados de análises do genoma neanderthal, a partir de pesquisas lideradas pelo geneticista sueco Svante Pääbo e sobre o agora provado acasalamento deles com humanos sapiens (mais evoluídos), produzindo descendentes com 1% e até 4% do material genético daqueles.


Estes percentuais são os mesmos – ainda segundo a pesquisa – que tataravós transferem a seus tataranetos. Então, não é pouco. Extrapolando dados, pode-se dizer que entre os 7 bilhões de pessoas que andam pelo mundo hoje, cerca de 50 milhões sejam descendentes diretos dos neanderthais, um dos elos considerados extintos da cadeia de evolução humana; agora, como se prova, não tão extintos assim.


Não insistimos, em nossa prosa, acreditar que no mais fundo de nós ainda resistam genes com instintos mais animais que humanos, mas a ideia permanece latente.


As ocasiões em que o homem moderno(?) vira fera de novo, sucedem-se. Tomamos conhecimento, anteontem, da triste sina de Domingos Conceição dos Santos, 47 anos, portador de marca-passo, que se viu barrado pelo aparelho anti-metal da roleta envidraçada de um banco exatamente no dia em que receberia sua primeira aposentadoria. Tentou argumentar com o vigia do banco, Pedro Gonçalves Almeida, mas, nada feito. O segurança puxou o revólver e atirou. A bala atravessou a cabeça de Domingos e acertou, de raspão, idoso que aguardava para entrar. Quando escrevi, Domingos continuava em coma, entre a vida e a morte. Raiva? Instinto animal? Instinto, certamente. A diferença é que animais matam para se alimentar.


Dentre as feras está também a procuradora aposentada Vera Lúcia Sant'Anna Gomes, de 57 anos. Ela levou para seu apartamento, em março, menina de 2 anos abandonada pela mãe e que estava em um abrigo. Passou a submete-la a agressões e humilhações continuadas conforme funcionários de sua casa testemunharam na polícia. Segundos os depoimentos, "a menina não pedia ajuda porque estava impedida de chegar perto de nós. Só chorava. Era agredida na nossa frente". Os funcionários se demitiram. Depois de uma das agressões mais graves, a menina foi retirada pelo Conselho Tutelar do apartamento da procuradora e internada. Seu olhos não abriam, tal o inchaço do rosto. "Dona" Vera está indiciada. Torturou, segundo quem com ela conviveu.


Vai mudar? O segurança do banco vai? Não. E nossas leis garantem: se condenados forem, estarão novamente nas ruas em pouco tempo "por bom comportamento".


Entre o encontro e acasalamento do neanderthal e do sapiens, entre 40 e 50 mil anos atrás – produzindo a vertente humana européia, ainda de acordo com a pesquisa – e o seres "evoluídos" que temos hoje, não me parece que tenha mudado a regra básica onde a raça humana impera: a lei do mais forte. Só essa. Infelizmente.

 

MUDAR?
Depende de voto. Depende de querer votar. Depende de querer votar adequadamente. Depois, depende de cobrar quem elegemos. Duramente, se preciso.


EDUCAÇÃO
Depende de pais conscientes que resolvam ensiná-la em casa, mesmo que os filhos reclamem. Só assim a escola pode voltar a cumprir seu papel de transmitir cultura e informação. Ao contrário, não. E, pela evolução, a tendência é piorar.


LEIS
Dependem de respeito. E de quem ensine o que significam. Senão, são apenas palavras que ninguém lê em papeis que ninguém nunca viu. O pior é que bandidos, ao contrário de homens de bem, conhecem. Por conhecerem, sabem também os meandros que possibilitam que continuem fortes.


MULHERES-SEMÁFOROS
Na Coréia do Norte, onde liberdade é apenas utopia, há jovens mulheres que passam horas sob sol inclemente em meio a avenidas, orientando trânsito de veículos... que não existe. São autômatos – "mulheres-semáforos", segundo nosso chefe de reportagem Leandro Vaz –, resultado de obediência cega a leis cegas, destinadas a manter o poder do mais forte. Lá, como cá e em todos os lugares, exemplos incontáveis de falta de evolução.


MÃES
São o mais alto grau da evolução humana. Mesmo nos tempos neanderthais já defendiam – instinto? bom instinto! – suas crias contra todas as espécies de agruras. Embora a competição comercial as tenha transformado em musas "dignas" de presentes uma vez por ano – amanhã, 2º domingo de maio – espero que desculpem o mundo por esse deslize e continuem firmes e fortes, testemunhando que o bem – e só o bem – pode vencer o mal. E aproveito o texto – e não a data – para agradecer D. Juraci e D. Lourdinha, as mães de minha vida, por tudo o que tentar fazer por minha evolução como ser humano, filho e marido.

 

Luiz Neto
Jornalista, editor de Opinião do Comércio - luizneto@comerciodafranca.com.br

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