Paixões claras e obscuras


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“Pensar é transformar”.
Luiz Carlos Uchôa Junqueira Filho,
psicanalista

 

O Prazer, tal como se sente, não parece depender de aprendizado. Rose Montero salienta: quando nos apaixonamos, pela enésima vez, parece que é do mesmo jeito e igual intensidade. Há que ter recursos para lidar com a estagnação que as Paixões nos condenam. Elas são, sabemos na carne, poderosamente conservadoras, escravizadoras.

A libertação parece estar na possibilidade e/ou capacidade de transformação, não da intensidade delas, nem da sua natureza estética (gosto/não gosto), mas em buscar novas formas ou recursos advindos de uma ampliação de olhar, do sentir, de uma ampliação no modo de vida, na ligação com o Mundo e com a Alma. Na re-configuração deste Prazer.

O prazer que sinto, agora, é para o bem ou é para o mal? Favorece o crescimento ou me mantém submisso, conformado, estático?

Há um sistema Moral, além do Estético, a reger nossas ações e sentimentos. Não nos perdoamos se infringimos alguns preceitos. Mas “a carne é fraca”, somos humanos subornáveis por Paixões como a Vaidade, Gula, Luxúria, Ganância. E também Inveja, Ciúme, Vingança.

No Encontro da II Bienal, 13, 14, e 15 de maio, teremos Conferências e Mesas sobre Paixões Claras e Obscuras, programa intenso e apaixonado.

Para Prazer fácil e imediato, temos diferentes amigos, os que badalam, os que nos fazem rir, os do trabalho. Mas a Amizade pode também ser veículo para o autoconhecimento, e os amigos se tornam assim tesouros preciosos, difíceis de conquistar, manter e guardar.

A Amizade de alguns amigos célebres, na Literatura, p.e., Dom Quixote e Sancho Pança, mostram a transformação de uma relação, de fidalgo/criado, em uma relação de companheirismo, onde as personalidades distintas se somam e tornam a dupla indivisível. Não se pensa em D. Quixote sem pensar no valente Sancho Pança, pragmático e ganancioso, que acaba por assimilar as qualidades de Dom Quixote, idealista e sonhador, que, por sua vez, é salvo muitas vezes pelo escudeiro fiel. Entre os dois a aquisição da Ternura e a Coragem na eterna busca do “sonho impossível”.

Montaigne e La Boétie tiveram uma amizade de pouco mais de quatro anos, mantida e guardada por décadas por Montaigne. Amizade imortalizada por uma obra que atravessou quatro séculos, os famosos Ensaios. Obra inspirada não exatamente na perda do amigo, mas na capacidade de Montaigne em transformar a sua curta convivência com La Boétie em uma substância íntima, compartilhável, sábia e realista.

A amizade entre Freud e Fliess foi admirável. Freud, em presença do amigo, se desnudou em uma estreita relação onde co-existiam Ódio e Amor - simultaneamente. Uma capacidade em suportar esta tensão de Freud permitiu a descoberta ou a criação de um método analítico capaz de sustentar uma convivência íntima entre psicanalista e paciente, no curso de uma investigação profunda, propiciadora de transformação.

O que ocorre, na intimidade de uma sessão de análise, é dificilmente reprodutível, mesmo em filmes, gravações, etc. Há um movimento, intrínseco à dupla - que inunda, queima, devora, cataliza, subverte, perverte, nega, afirma, contraria, dispõe. Mas que leva Paciente e Psicanalista a se conhecerem nas profundezas, reconhecendo e muitas vezes nomeando Paixões que insurgem no caminho deste “conhecimento”.

Há algo importante na travessia singular de uma análise, e não é um “conhecimento intelectual”, mas tem relação com a ampliação do SER.

M. Khan, psicanalista inglês de origem hindu, diz: pode-se dizer que o que há de original na situação clínica é que o analista sobrevive tanto ao amor como ao ódio do paciente, como pessoa, e que o paciente, como pessoa, ao término do relacionamento, também sobrevive a isso, e sai enriquecido”.

Espera-se um crescimento mental dos dois. Sem sacrifício da Paixão, em sua natureza e intensidades.

Vamos ao Banquete, na II Encontro Bienal da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Ribeirão Preto? Os comensais podem vir de várias áreas de atuação profissional. Não há interesse em se falar “psicanalês”.
 
 
Maria Luiza Salomão
Psicanalista e Psicóloga

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