Lembro-me da Praça Barão da Franca quando ela tinha um jacarandá no centro e dois pontos de carros de aluguel em suas extremidades. Havia também o famoso pé de jatobá nas proximidades do sobrado verde ( hoje, edifício Franca do Imperador ). Os motoristas de praça protegiam-se do sol numas árvores que tiveram de ser cortadas por causa da infestação dos lacerdinhas ( nome derivado do Governador Carlos Lacerda, líder da UDN ), praga de insetos que , caindo nos olhos, produzia uma queimação muito desagradável.
Porém, o mais interessante da Praça Barão sempre foram os seus freqüentadores. Muitos faziam dela o seu escritório ou o seu clube social. Por ali passavam e viviam pecuaristas, comerciantes, cafeicultores, agiotas, diamantários, lapidadores, aposentados, corretores, engraxates, vendedores de loteria e, como não poderia faltar, desocupados de toda ordem. Salvador Boa Vida era vendedor de bilhetes de loteria. Possuía dois apelidos: chamavam-no de Baiano (devido à sua naturalidade ) e de Boa Vida (em virtude de sua maneira de viver ).
Salvador Boa Vida era baixo, sangüíneo e sorridente. Vestia sempre um terno de linho amarrotado, uma gravata escura e um chapéu de abas curtas. Estava diuturnamente na Praça e sempre que passávamos por ela ( eu e meu pai ) ele vinha com toda a sua simpatia conversar conosco. Invariavelmente ele torcia minha orelha, puxava meu nariz e, com dois dedos de sua mão direita, batia em minha braguilha e perguntava:
– O que você tem aí?
No começo eu ficava meio envergonhado, até que alguém soprou em meu ouvido uma frase mágica
– Diga: é a saúde das muié.
Daí para frente, todas as vezes que o Baiano batia com os dois dedos em minha braguilha e fazia a tradicional pergunta, eu respondia:
– É a saúde das muié.
A gargalhada era geral e eu também ria, ria das gargalhadas.
Derrubaram o jacarandá, o jatobá. Remodelaram a Praça, mas ela não perdeu a sua função. Salvador Boa Vida deixou de lado o seu terno de linho. No entanto, permaneceu na Praça vendendo bilhetes sem chapéu e em mangas de camisa. Por motivos óbvios, deixou de bater em minha braguilha. Contudo, continuou recebendo-me com um largo e contente sorriso.
Salvador continuou “Boa Vida”, até, pelo menos, a década de 70. Daí para frente eu não tive mais notícias dele. Certamente, nada de mal lhe aconteceu: ele não era padre e muito menos pedófilo.
Chiachiri Filho
Historiador, criador e diretor por oito anos do Arquivo Municipal e membro da Academia Francana de Letras
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