Mães, segundo os filhos


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Queria escrever sobre maternidade, mãezices. Queria louvar as mães, principalmente a minha. Queria agradecer desvelo, carinho, atenção, ensinamentos, lições, posturas, bondade, puxões de orelhas e castigos, tolerância, solidariedade nos momentos difíceis, mas não posso.

 

Não posso porque recentemente dei-me conta de que tudo que mamãe ensinou estava errado. Tudo. Bem, ficaram as lições de culinária e só de comidas engordativas, mas para a vida, nada. Joguei fora a cartilha inteira. É. Minha mãe era do século passado, o que não é lá desculpa para suas posturas retrógradas: todo mundo com mais de nove anos também é modelo antigo e nem por isso se mostra atrasado, antiquado, fora de moda.


Ela era fogo. Uma vez alguém de casa ficou com o troco de uma compra. Merreca, quase nada. Titirica, fez um fuá medonho: isso era muito feio, isso era roubo! Aí a gente se doeu: 'Roubo nada, de pouquinha coisa? Poucos cruzeiros?'. (Era tempo dos cruzeiros). Ela então passou o maior pito: não importava a quantidade. O simples gesto de reter em nosso poder algo - por menor que fosse a quantidade ou o volume - que não nos pertencia, era furto. Nessa esteira, quando uma advogada me procurou para eu reivindicar a gorda indenização do Estado pelos maus tratos sofridos no passado, não tive coragem de andar com o processo. Remoí a raiva, mordi a boca: tanta gente recebe que nem envolvida estava e eu... recusando? Que ódio! Bem, ela não está mais aqui. Queria só ver o que pensaria das bolsas isso e aquilo que o governo espalha para conseguir voto e que muita gente recebe indevidamente e fica caladinha. Ah! Tenho certeza: ela ia dizer que isso é corrupção e que também é muito feio. E quem se importa, me diz? Quem?


Nossa! Veio à memória o dia em que ela me pegou mentindo. Virgem Santa! Pois acredita que ela me fez ir até à pessoa que eu tentei engambelar, pedir desculpas, explicar que não era nada daquilo que eu dissera? Explicar e esclarecer a situação, acredita? Voltei para casa cabisbaixa, vermelha até nas tampas, pegando fogo. Parecia que o mundo inteiro me olhava através das frestas das janelas. Tinha como seguro que estava marcada no peito com a letra escarlate M (de mentirosa). E por causa do quê? Porque eu disse para o dentista que estava com dor de dente e não podia ir para a sala de aula. Ele até me arrancou o dente - era um segundo molar - o que fez minha mãe ficar mais fula, ainda. O dente era sãozinho, mas eu tinha sabatina e não havia estudado nada, entende? (Pensando bem não sei se ela perdeu o juízo por causa do dente ou por causa da mentira. Vai lá: por causa das duas coisas.) Mas, ia dizendo, será que a mães dos políticos - que são praticamente da mesma geração que eu - não ligavam nadinha? Não lhes ensinaram que mentir é feio?


Não era só isso, não: ela obrigava a gente a cumprimentar as pessoas, pedir licença, dizer muito obrigada, por favor, desculpa. Não nos deixava ficar na rua até tarde desacompanhados. Exigia que guardássemos nossos pertences; que dividíssemos parcimoniosamente entre nós, o pouco que havia em casa. Nossa! Se sonhasse com uma deselegância nossa para com um professor... era castigo pesado na certa. Tínhamos que exercitar delicadeza e respeito para com os vizinhos. Só nos emprestou o carro depois de formalmente habilitados. Não dava moleza: cada um cuidava do seu uniforme escolar, fora aquelas bobagens de 'Prometeu, tem que cumprir!'. A palavra é prata, o silêncio é ouro! Mesmo que tenha presenciado, cale-se! Nunca coma o último bolinho do prato! Não demore ao telefone! Não se exiba! Não diga em voz alta o que ninguém perguntou. Ficaria horas enumerando essas bobagens em desuso, essas besteiras. Mas o segundo domingo de maio é dedicado às mães, vai ficar feio às vésperas desse dia eu ficar aqui espinafrando a minha por conta dessas pílulas de prisca e ultrapassada filosofia medieval mas, confesso, saudades dela e daqueles românticos tempos...

 

PRESENTE
Na onda das reminiscências, diretamente de folclore doméstico: Dia das Mães, dia de presentes. Naquele tempo elas ganhavam jogo de bolo, batedeiras, fogões e geladeiras - modelos novos - e a-do-ra-vam! Um irmão inovou: com o dinheiro que o pai lhes dera para essa finalidade, ele passou a lábia nas irmãs e convenceu-as a comprarem, naquele ano, outro tipo de presente: o último bolachão dos Beatles. Imagine o espanto da mãe abrindo o pacote e da alegria dos filhos ouvindo, o big sucesso I Want to Hold Your Hand...


PERGUNTAS
Tem coisa mais bonita que uma barriga cheia por causa de um bebê dentro dela? Tem olhar mais doce que o de qualquer mãe olhando para o filho de qualquer idade que está contando algo só para ela? Tem aperto de mão que dê mais segurança que o da mãe ao atravessar a rua com uma criança? Tem mulher mais corajosa que a mãe, no momento em que o filho sofre ameaça? Tem geladeira melhor abastecida que a da mamãe? Quer se sentir criança? Ponha a cabeça no colo dela e peça cafuné...


LICENÇA
Peço licença para cumprimentar as mulheres que são ou se sentem mães. Cumprimento as mães solteiras, as casadas - com ou sem marido ao seu lado. Cumprimento os homens-mães, um espécime recentemente surgido e que, atuando com competência, vem mostrando que a maternidade, em alguns casos, pode assumir uma postura absolutamente heterodoxa...

 

Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br

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