Em 2002, diante do declínio então em curso das livrarias na cidade, que foram uma a uma fechando as portas e cedendo espaço às mega stores dos grandes centros e à oferta de livros pela internet, esta seção do Comércio comemorou a abertura de um sebo em Franca.
Era o Sebo Almanaque, de Genoveva Nazar, que começava discretamente, com um acervo inicial de 2 mil exemplares e a assessoria de seu marido, o despachante César Nazar, um colecionador de livros, discos, revistas e jornais, um arquivista por excelência, senão um bibliófilo, no sentido lato.
A boa nova é que o empreendimento, - que parecia ter tudo para não vingar, a considerar axiomas pejorativos do tipo “brasileiro não lê”, especialmente na cidade que viu desaparecer o segmento livreiro, - vem mostrando fôlego, inclusive agora na ramificação para a comercialização de livros novos, passando assim à conjugação de sebo e livraria num mesmo espaço. Também passou a integrar o site Estante Virtual, que interliga sebos de todo o país e disponibiliza obras literárias aos internautas.
A casa oferece hoje 8 mil livros, demonstrando um crescimento expressivo. Nada mal para um panorama que se afigurava sombrio. As justificativas para tal desempenho são interessantes. Dentro de uma proposta de oferecer material alternativo, material de nichos específicos, o espaço acaba por atrair todo tipo de iconoclasta. O acolhimento dos Nazar no trato pessoal conta pontos: não raro emprestam obras de seu acervo pessoal àqueles que as buscam e não encontram disponíveis. Eventos musicais aos sábados também vêm atraindo jovens de tribos diversas que folheiam com liberdade as obras enquanto ouvem música, instituindo assim, uma “cultura de sebo”, com frequentadores fixos. E, por último e evidentemente, os preços. Para se ter uma ideia, há ali pacotes de três best sellers por R$ 5. A proporção de vendas dos livros é de 75% em relação à saída de discos e CDs.
“Quando Genoveva iniciou com o sebo, já tínhamos em casa grandes coleções de gibis, livros, discos, jornais encadernados, revistas. Com o tempo, houve demanda pelo espaço de venda e o material original que não disponibilizávamos ao comércio voltou para o acervo particular”, conta César Nazar.
Para ele, as fontes para reposições são fundamentais. Embora eventualmente apareçam bibliotecas em que se encontram preciosidades em meio a muito material de baixa saída, o que mais aparece são pequenos lotes. Há nomes, por exemplo, óbvios, que não podem falhar: Drummond, Bandeira, os modernistas enfim, que de uma forma geral hoje têm sido os mais procurados. “De 2002 para cá sentimos uma nítida mudança no perfil do cliente. Hoje vemos uma valorização dos autores brasileiros”, diz César Nazar.
PÚBLICO JOVEM
Outro dado interessante no sebo, em tempos de download, é a frequência de jovens, que a despeito de toda a tecnologia circundante oferecendo cultura, parecem ávidos pela materialidade do produto cultural que ao longo da última década foi transmigrando para uma virtualidade aflitiva. “Recebemos de pré-adolescentes até pessoas de terceira idade. Meninos de 14 a 17 anos buscam mais música. Querem bandas que faziam sucesso na minha juventude. Percebe-se, por exemplo, um culto a Raul Seixas”.
Nazar diz ainda que Machado de Assis vem sendo cultuado pelos jovens. “Eles também estão buscando por exemplo autores da Geração Beat”, explica.
TROCAS CULTURAIS E AFETIVAS
Itaciane Tognati Silveira, bióloga, auxiliar de vendas no Almanaque, uma apaixonada por livros, conta que o trabalho no sebo tem a particularidade de agregar pessoas interessantes. “Às vezes encontro pessoas muito inteligentes, com visão de mundo diferenciada, uma particularidade que, imagino, não encontraria em outro comércio. Não só vendemos cultura como a recebemos gratuitamente por diálogos que temos com o público. Uma troca e tanto”, observa, acrescentando outro dado interessante: a procura por parte do público da terceira idade por obras juvenis como Harry Potter; Senhor dos Aneis; O Ladrão de Raios.
Wendell Ferreira Blóis, estudante de História na Unesp, também auxilia no sebo, cuidando do setor editoras e vendas pela internet. Ele enfatiza o caráter de disseminação cultural, específico ao sebo. “Temos a intenção de divulgar a cultura nos seus mais diversos âmbitos. No dia 29 de maio teremos uma apresentação do Grupo Balaio”.
Durante a entrevista no sebo, o dentista de 63 anos José Armando Cardoso, de Cássia (MG), procurava discos em vinil de Ray Conniff e de Billy Vaughn para acrescentar ao seu acervo de mais de 3 mil discos. “Fico muito satisfeito por Franca ter um sebo desses que oferece muita coisa boa. Gosto de coisa antiga, tenho coisa até da Casa Edson, do Rio, que fabricou os primeiros discos em 78 rotações no Brasil”, disse ele.
Esteve ali também Erik Fernandes de Oliveira, despachante de 22 anos. Cliente assíduo do sebo, diz levar pelo menos três obras para casa todo mês. “Houve uma época em que comprava só Agatha Christie. Depois, a partir de indicações de frequentadores do local, comecei a ler o clássicos da literatura brasileira como Machado de Assis. Li todos os seus romances e boa parte dos contos. Gosto muito de Dostoiévski”, conta. “Acho importante frequentar um sebo porque oferece muitas opções sobretudo de obras que de outra forma não conheceríamos. O interessante é que num sebo encontramos pessoas com que temos afinidades. Já fiz muitos amigos por aqui”, completa Erik.
Pequenas mostras de que, ao contrário do que se imagina, há um interessante nicho cultural pulsando em Franca.
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