Uma canção de ninar


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Houve um tempo em que só se ouvia música pelo rádio. Pouca gente dispunha de recursos para comprar discos. Nessa época, a língua inglesa imperava nas letras das canções. Até lei foi feita para proteger a produção musical nacional nas programações radiofônicas. Cada emissora devia emitir som genuinamente brasileiro em pelo menos 50% da sua grade de programas.


Faz mais de 30 anos que a inspirada e belíssima música Rock and roll lullaby (balanço e agito para ninar, numa tradução ao pé da letra) estourou em todas as paradas de sucesso do Brasil. Interpretada pelo cantor norte-americano B. J. Thomas, a canção tocava sem parar em todas as rádios.


Nesse período de som estrangeiro intenso, normalmente as músicas de sucesso acabavam vertidas para o português. No entanto, apenas a melodia permanecia, porque a letra mesmo passava a ter uma conotação muito diferente na voz de cantores populares ou, o mais comum, na interpretação de uma dupla sertaneja.


Por conta disso, pouca gente sabe o conteúdo exato da letra de Rock and roll lullaby. Nas versões (fizeram duas diferentes), acabaram com a mensagem da canção. Em uma, a história fala de um amor entre homem e mulher, logicamente não correspondido por uma das partes, bem ao gosto do gênero sertanejo. As lembranças de um filho criado somente pela mãe, sem a presença do pai, nem aparecem nos versos gravados em português.


No original, B. J. Tomas canta: ‘Ela estava apenas com 16 anos/ E completamente sozinha/ Quando eu nasci./ Então nós crescemos juntos,/ Minha mãe criança e eu./ Mas sempre que eu chorava,/ Ela acalmava meus medos/ E enxugava as minhas lágrimas/ Com uma canção de ninar/ E ela cantava assim para mim/ Sha na na na na na na na.../ Vai dar tudo certo’.


Ah! Se toda mãe cantasse para seus filhos o mundo seria bem melhor. O poder da voz materna é muito grande na vida de qualquer criança. Nada supera aquele acalanto feito bem perto dos ouvidos. Passe o tempo que passar, pessoa nenhuma vai esquecer o carinho recebido durante a infância. O som introjeta definitivamente na mente e não sai mais da lembrança.


O contrário também vale. Quando uma criança se sente como um estorvo na vida da própria mãe, muito provavelmente cresce infeliz e passa todo o seu desgosto para com a vida a todos que estão à sua volta. A situação se alastra e contagia sem parar.


A mãe sempre foi a grande construtora de gente em todos os tempos. De suas atitudes podem sair pessoas aptas a viver bem comunitariamente. Até mesmo o contato materno inicial pode se revelar depois. Toda mulher deveria então pensar mais quando vai iniciar um relacionamento. Filho indesejado torna-se carga para ela e também para a sociedade.


De resto, em que pese toda a idealização do Romantismo presente no livro Amor de Perdição, do escritor português Camilo Castelo Branco, fica a frase: ‘Criança que se acalentou em seio sem mácula cresce pura’.

 

Antônio Araújo
Professor de redação - tonin.palavras@uol.com.br

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