Hoje é Dia do Trabalho. Para comemorar o dia em que todos deveriam pelejar ainda mais para saudar o valor do trabalho, para-se. Não fosse pelo feriado, pararíamos quase todos porque é sábado. Ou então porque, por "convenção de trabalho, tem-se que parar para compensar aquele outro feriado no qual trabalhamos e não descansamos". Sabe como é?
Comercialmente falando, é um angu de caroço, como diriam minhas avós, concordes na sabedoria de que "só o trabalho merece o homem". O comércio tem, no Dia das Mães, que se comemorará no domingo que vem, um dos dias mais importantes de seu calendário comercial mas, hoje, a contragosto, para; não trabalha.
Tenho certeza de que se esqueceram de olhar na folhinha para "repor o dia de descanso". No caso, lembraram-se do feriado de Primeiro de Maio mas não verificaram que cairia num sábado. Fosse numa quinta ou sexta, seria "dia de trabalho comum, porque o Dia das Mães vem ai e se pode perder tempo". Ontem, tive certeza sobre o que digo: algumas empresas do centro da cidade, 'entendendo o erro', estavam dispostas a contrariar a regra e pagar multa para abrir hoje. Ao final, parece que decidiram não arriscar.
Volto à questão do trabalho, aquele "que merece o homem". Há alguns profissionais que não param hoje. Médicos e enfermeiros em plantão. O pessoal da coleta de lixo (hoje tem, normal), padeiros, jornalistas (sim, amanhã tem Comércio da Franca bem cedinho na casa dos assinantes e nas bancas que abrirem), profissionais que atuam em serviços essenciais, comerciários que pelejam em hipermercados etc. E mães, aquelas que trabalham hoje e também em todos os domingos, feriados, dias santos e também em todos os dias comuns, sem férias, sem convenções de trabalho, sem aposentadoria, sem o reconhecimento de que é delas a profissão pior remunerada e menos compreendida do mundo.
Mães – a maioria, já que existem outras 'mães' que vão pondo filhos no mundo só por causa do prazer de fazê-los – não têm carteira de trabalho, são capazes de dedicar 26 horas por dia a cuidarem de tarefas que, fossem direcionadas ao cuidado de filhos que não são seus, mereceriam remuneração similar às de grandes executivos de grandes empresas. Mas não.
Lembro-me de uma história curiosa – ou, estória, com o perdão do mestre Everton de Paula, nosso titular das Questões de Português cá do Comércio, que tratou o tema ontem – que me foi contada há alguns anos, sobre uma senhora que compareceu a uma repartição pública para renovar um documento. Pediram-lhe para informar sua profissão. Ela, mãe dedicada exclusivamente a ser mãe, hesitou. Não sabia como classificar seu trabalho. "Sou mãe", disse. O funcionário a olhou e devolveu "Isso não é profissão. Aliás, nem é trabalho!!!". Disse, olhou friamente a mulher parada à sua frente e escreveu: "do lar".
Aquela senhora, pensando sobre as jornadas de trabalho diuturno às quais se dedicava, sem patrão a quem pudesse reclamar, pedir aumento de salário, tirar férias ou beneficiar-se de nada do que desfrutam aqueles que estão no mercado de trabalho, prometeu-se: "isso vai acabar".
Algumas semanas depois estava novamente à frente de um guichê e de uma funcionário que lhe parecia segura, eficiente. De repente, a pergunta: "o que a senhora faz; qual a sua profissão?". E ela: "sou doutora em desenvolvimento infantil e relações humanas". A funcionário espantou-se, tirou o olhar do papel e olhou para a senhora com redobrado interesse e respeito e gaguejou: "como?".
Ela repetiu cada palavra, enfatizando: "sou doutora em desenvolvimento infantil e relações humanas". A moça, "maravilhada", não se conteve: "que interessante! E o que exatamente, a senhora faz?". E a senhora: "gerencio um projeto de longo prazo com uma equipe de crianças que, sob minha estrita supervisão, deve tornar-se educada, cidadã, vencedora, partícipe do mundo moderno, capaz de manter-se afastada de quaisquer riscos ou problemas, praticar relacionamentos honestos e tornar-se capaz, em 2 ou 3 décadas, de reproduzir o trabalho que hoje realizo em prol de novos grupos que vieram a criar ou a receber. Trabalho em regime de dedicação exclusiva na maioria das horas do dia, todos os dias do ano. Minha profissão é extenuante, mas a realizo com extremo prazer". E, como a um toque final, cravou: "E, pelo que vejo, jamais vou me aposentar".
Aproveito este Dia do Trabalho que cai num sábado em que todas as mães trabalham, para saudá-las, elas que serão usadas e abusadas no próximo domingo como "mote" de data de intensa comercialização. O mais interessante é que receberão, como 'justa paga', eletrodomésticos e outros 'presentes' que só poderão utilizar como ferramentas para 'trabalharem mais e melhor'.
Mude isso. Dê à sua mãe o que realmente lhe falta: presença, afago, agradecimento. Não perca tempo. Desenhe a história dela utilizando os jargões de gerência mais modernos que conhecer e concluirá que tem, bem perto de você, todos os "cases" de trabalho capazes de torná-lo, também, um vencedor. Faça assim: reduza a distância!; aperte-a de novo, como fazia quando era criança.
SALÁRIO DE MÃE?
Uma empresa de compensação salarial de Toronto, no Canadá, pediu a 18 mil mães uma lista de suas tarefas mais comuns para calcular o que teriam a receber se acaso fossem remuneradas. Comparando com postos de trabalho existentes e suas remunerações médias, deveria ela receber cerca de US$ 125 mil por mês (R$ 212,5 mil), incluindo horas extraordinárias. Dentre as atividades compatíveis com o mercado exercidas por uma mãe convencional, estão operadora de máquina de lavanderia e de passar, psicóloga, professora, gerente de instalações, motorista, diretora executiva, presidente de empresa (CEO), faxineira, cozinheira, serviços gerais, gerente de creche e operadora.
Luiz Neto
Jornalista, editor de Opinião do Comércio - luizneto@comerciodafranca.com.br
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