Confesso que quando vi o cartaz do Festival do Doce de Leite de São João Batista do Glória, fiquei tentado a ir, ainda mais agora que a ponte sobre o rio Grande está pronta e não há mais necessidade da poética mas demorada travessia de balsa. Resisti bravamente, só pedi para a Tati, uma arquiteta amiga de lá comprar um pote do vencedor.
Ressalto que minha especialidade é apenas devorar doce de leite, sobremesa predileta, um doce deleite. Quando viajo, procuro descobrir novas marcas. Meus alunos, matreiros, sabendo de minha predileção, às vezes me surpreendem com potes e latas de presente dos mais variados lugares. Tem de Alpinópolis (Cooral), de Viçosa, da cooperativa de Muzambinho, que tem uma vaquinha vermelha desenhada na lata, o Aviação de São Sebastião do Paraíso, o Teneré de São Tomás de Aquino, são muitos os bons doces dos vizinhos mineiros.
Há um, de Araxá, cuja lembrança trago da infância. Minha mãe mandava buscar mantimentos no armazém do Rachid e do Nelson Salomão, na rua Major Claudiano. Era daqueles armazéns antigos, com feijão a granel, carnes defumadas penduradas no teto, azeitonas pretas em conserva, um lugar repleto de cheiro diferentes. Na lista, sempre havia espaço para uma lata de doce de leite Araxá, que trazia estampada um belo desenho do Hotel Barreiro. Era meu predileto, mas desapareceu completamente das prateleiras. Cheguei a pedir para alguns amigos que visitaram Araxá nos últimos tempos, mas ninguém encontrou, deve ter fechado a fábrica.
A lata do doce de Araxá acabava logo. Mas principalmente quando minha mãe teve uma empregada chamada Maria. A lata foi aberta no almoço. À noite, minha mãe foi pegar na geladeira a lata e ela estava quase vazia, a bronca ia sobrando para nós, os filhos, que apontamos a Maria como a responsável pelo seu esvaziamento.
No dia seguinte, minha mãe foi tirar a história a limpo e perguntou para a Maria se ela tinha comido o doce. Candidamente, ela respondeu que sim, tinha comido uma colherada só, estava muito bom. E mostrou a colher: a de arroz. Até hoje, lá em casa, quando algum esganado pega uma grande quantidade de comida, logo escuta: “pegou com a colher da Maria?”
Certa vez, fui convidado para falar sobre urbanismo em Guaxupé. Como o motorista do carro que mandaram me buscar ia ficar esperando mesmo, deixei dinheiro e pedi para comprar no supermercado uma lata do doce de Muzambinho, o da vaquinha vermelha. Quando entrei no carro para retornar, o motorista me entregou a lata de doce com o troco e falou: “professor, não encontrei o doce no supermercado daqui, então como eu ia ficar esperando, dei um pulo em Muzambinho para comprar”. Levei um susto e perguntei: “é longe?” E ele: “não, fica apenas 26 quilômetros daqui”. Só de ida. Deve ter sido o doce mais caro que comi na vida.
Mauro Ferreira
Arquiteto, professor e escritor
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