Na história da arte, até que idéia, estética e movimento ganhem nome, já terão contagiado muitas almas. A ponta do iceberg não é só o que aparenta na superfície; a sua formação se explica no que está submerso. Foi assim com o Surrealismo, palavra criada em 1917 pelo francês Guillaume Apollinaire. Muito antes do Manifesto Surrealista, que cunhava o termo, os traços maiores desta corrente já apareciam como recursos utilizados para libertar o homem de sua existência utilitária, das exigências da lógica, do império da razão. Junto com Appolinaire estavam Aragon, Eluard, Artaud, Nérval, Prévert e Péret, poetando e fazendo ficção; Dali, Miró, Picasso, Max Ernest, pintando; Luís Buñuel, começando a reunir imagens para o que seria seu primeiro filme. Sigmund Freud estruturava os alicerces teóricos da Psicanálise.
Pelo menos trinta anos antes, estetizando as formas do sonho, do lúdico, do erótico e do anárquico, um professor de matemática chamado Charles Lutwidge Dogson escrevia em língua inglesa livro surpreendente. Dedicado a uma menina, seria lido também por adultos no mundo inteiro, traduzido para mais de 50 idiomas nos anos posteriores à sua publicação, em 1865. O nome do livro era Alice no país das maravilhas e transpunha à narrativa imagens do inconsciente. O público maravilhou-se com as aventuras de Alice desde o lançamento, tentando decifrá-las e interpretá-las de muitas formas, o que conferia cada vez maior valor à obra. Sua riqueza semântica nunca se exauriu, ao contrário. Chegou intensa ao século 21, a ponto de seduzir um cineasta que só aposta no grande, no belo, no plural — Tim Burton. O filme homônimo, que estreou no Brasil na semana passada, bebe na fonte Lewis Carroll a água surrealista que hidrata a fantasia mais audaz.
Estimulada pelo noticiário abundante, fui atrás do título, que havia lido na adolescência. Reli-o na tradução do historiador Nicolau Sevcenko, acompanhada de ilustrações de Luiz Zerbini, belíssimo trabalho editorial da Cosacnaify. Mas confesso que senti saudades do primeiro, que os de minha geração conhecem, tradução de Maria Luiza Borges e desenhos de John Tenniel, o primeiro ilustrador. Há que se reconhecer que Sevcenko é mais criativo, permitindo-se maiores liberdades na trasnsposição do inglês para o português. Não se pode esquecer que no âmbito da ficção, como no da poesia, traduzir também é criar. Sevcenko criou especialmente nos poemas que são elementos importantes da narrativa. A sutileza do tradutor-criador pode ser percebida em pequenos detalhes, como na troca de posição de um adjetivo para qualificar a Tartaruga, personagem complexo da saga. Ao chamá-la Falsa Tartaruga, em lugar do usual Tartaruga Falsa, promoveu uma possibilidade de entendimento novo e enriquecedor.
Ao longo do tempo críticos se debruçaram sobre o texto e fizeram interpretações políticas, filosóficas, históricas, ideológicas, científicas, psicológicas e psicanalíticas. Todas funcionaram como janelas a mostrar ao leitor a pluralidade de olhares comportados pela obra de arte.
Nicolau Sevcenko, no posfácio desta edição que comentamos, transcreve um trecho de carta enviada pelo ficcionista a uma menina: “Você costuma brincar de vez em quando ou a idéia que você faz da vida é ‘café da manhã, fazer lições, almoço, fazer lições e assim por diante?’ (...) Essa seria uma forma muito organizada de viver, e seria quase tão interessante quanto ser uma máquina de costura ou um moedor de carne”. Estas frases, para serem melhor compreendidas e avaliadas, necessitam estar contextualizadas no período em que o escritor as escreveu, espaço e tempo em que ganham um sentido mais lúcido por ser também pontual. À época, a Inglaterra vivia a efervecência da revolução industrial. Tal como outro artista de gênio que ainda não irrompera, Charles Chaplin, o autor de Alice... temia que os homens se transformassem em máquinas, em repetidores de rotinas, em peças de engrenagem. Para agravar o contexto de rigidez do trabalho pautado pela eletricidade, a moral puritana e o conservadorismo cultural eram elementos a se reunir para fortalecer um jeito inflexível de existir. Contra isso, Lewis Carroll usa o humor, o nonsense, o deboche, o lúdico, o sonho, o hiperbólico e os seres antropomórficos. Seu discurso, tanto quanto sua fábula, parecem implodir os sistemas fechados que incapacitam ao ser humano o exercício pleno das singularidades, a busca pela realização dos desejos, o questionamento dos autoritarismos. Avesso a processos mentais estáticos, propõe uma história onde a agilidade evolui para ritmo frenético. A explícita transformação de tudo a partir do próprio corpo da protagonista, elemento emblemático, reforça-se numa frase: “ Eu nunca sei o que vai acontecer de um minuto para o outro”. “Nós também, Alice”, poderíamos completar enquanto leitores deste começo de século já repleto de surpresas...
Sônia Machiavelli
Autora de Uma Bolsa Grená, Estações, Jantar na Acemira e O Poço
Título: Alice no País das Maravilhas
Autor: Lewis Carroll
Tradução: Nicolau Sevcenko
Ilustrações: Luiz Zerbini
Editora: Cosacnaify
Preço: R$ 39,90
Onde: Nas livrarias ou sites como o submarino.com
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