As matérias que tratam da falta de sapateiros em Franca que o Jornal Comércio da Franca, oportunamente, nos trouxe em 25 de abril e focou na Objetiva da última quarta feira, nos leva a séria reflexão.
Vivemos, atualmente, importantes mudanças de paradigmas em todos os setores da sociedade mundial. A cada instante, a cada nova reportagem ou matéria jornalística, nos deparamos com inquietações e com mudanças que acontecem em uma velocidade vertiginosa, muitas vezes mostrando nossa total incapacidade de acompanhá-las. Não é diferente na indústria do calçado.
A verdade, considerando o nosso problema local, é que presenciamos (ainda não que de forma totalmente inteligível) uma mudança nas pretensões de trabalho das gerações mais novas, ou seja, não temos jovens que demonstram a mesma aptidão para o 'chão de fábrica' que existia nas gerações mais velhas. A falta de 'sapateiros' disponíveis não pode ser entendida como mera questão de 'qualificação'. É, de fato, mudança sócio-cultural. Os jovens de hoje são influenciados e envolvidos pela tecnologia e não admitem, na sua vida profissional, a 'lentidão' de uma linha de produção calçadista. Ouvi isso de 'sapateiros temporários', em uma porta de fábrica. Diziam que aguardavam o término dos cursos que estavam fazendo, na maioria ligada à tecnologia, para deixarem a fábrica.
Assim, discutir a escassez de sapateiros é lembrar que a nossa indústria começou décadas atrás aproveitando o exercito de mão de obra disponível graças ao êxodo rural provocado pela mecanização da agricultura nacional. Esse fato não mais se repetirá e imaginar, ainda, que as indústrias manterão os sapateiros empregados em época de baixa produção, é imaginar que todo o nosso setor calçadista é administrado exclusivamente por 'empreendedores'. Infelizmente, a maioria é constituída de 'donos de fábricas'. Indivíduos que querem contabilizar apenas os lucros e evitar investimentos. Eu sei o quanto é difícil convencer donos de fábricas a participarem de feiras, investirem em pesquisa e desenvolvimento, investirem em marketing e considerarem a qualidade como fator importante na competitividade. Tudo que querem é que os impostos diminuam, o dólar suba e o sapateiro se satisfaça com o salário que ganha.
Assim, temos e teremos mudanças profundas no setor calçadista. Temos que pensar como aprimorar o parque calçadista, como estimular a formação e manutenção dos seus trabalhadores e o quanto há de tecnologia para ser aplicada no setor; minimizando essa escassez de mão de obra e aumentando a sua produtividade. Temos, também, que aceitar os fatos e pensar nossa cidade sob a perspectiva do futuro, ou seja, como estão se moldando os segmentos produtivos locais e qual será a demanda de mão de obra qualificada para eles. Após fazermos isto poderemos buscar escolas de formação técnica que atendam a essa perspectiva futura e até admitir a possibilidade de, amanhã, não termos mais uma indústria calçadista tão representativa. A história se faz com a evolução da sociedade. A indústria é parte dela.
Cassiano Pimentel
Agente de exportação e professor universitário
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