A última trapalhada


| Tempo de leitura: 3 min

A Câmara de Vereadores de Franca aprovou em votação na terça-feira, dia 20 de abril, um projeto que divide a sessão ordinária da Casa em duas. Na primeira, das 9 às 12 horas, passam a ser apresentados assuntos de interesse dos vereadores, mais requerimentos e indicações. Na segunda, das 14 às 18 horas, serão devidamente votados os projetos. A intenção do criador do novo horário, Jepy Pereira (PSDB), foi evitar o prolongamento das sessões noite adentro. Com isso, garantiu ele em argumentação, os vereadores teriam mais tempo a dedicar às propostas apresentadas. Também poderiam manter maior contato com a população na Casa de Leis.


A intenção, que alguns viram como positiva no sentido de organizar as horas de trabalho, a outros pareceu maliciosa, porque na mão ou na contramão acabou atropelando o ritmo profissional já estabelecido por muitos. Mas, benefícios e malefícios pesados, foi a lei aprovada, carregando nas linhas de seu artigo terceiro a observação da “imediata aplicação a partir da sua publicação”, ocorrida na última terça-feira, dia da enguiçada sessão ordinária.


Esquecido ou equivocado, o autor da lei, Jepy Pereira, não apareceu no novo horário que ele próprio estipulara no seu projeto nem se informou sobre a data da publicação da nova resolução ou sobre quando ela entraria em vigor. Postura diferente adotou a vereadora Graciela Ambrósio (PP). Independente do que a tenha motivado, fato é que a delegada chegou pontualmente à Câmara e, mais que ter sido surpreendida pela ausência dos colegas, surpreendeu a todos ao insistir que a sessão começasse. Assim como Jepy, os demais vereadores estavam completamente desinformados. Chamado às pressas, Joaquim Pereira Ribeiro (PSB) abriu a sessão com uns gatos pingados, numa cena ridícula que deveria se inscrever nos anais da Casa, não tivesse sido a sessão anulada uma hora depois pelo próprio presidente, após protesto dos vereadores. Estes, com base no regulamento interno da Câmara, disseram acreditar que deveriam ser formalmente informados do novo horário com 48 horas de antecedência. A pergunta que até agora não quer calar é por que o presidente da Casa não acionou o departamento jurídico para dirimir suas dúvidas, antes da publicação da norma ou mesmo do início da sessão.


Na sequência o que se viu foi uma cena de teatro do absurdo. Os vereadores, assustados, constrangidos e irritados, passaram a classificar a situação como fruto de “má fé, manipulação de bastidores, pegadinha e até palhaçada”. E debitaram tudo na conta da vereadora Graciela. Mais surreal impossível. Como é de seu feitio, ela rebateu as acusações do colega Pereira, taxando-o de “confuso”. Em sua defesa, Jepy alegou que não houvera convocação da presidência para o novo horário, que desta forma não seria cumprido.


Confusões e ridículos à parte, não é a primeira vez que a maioria dos vereadores troca os pés pelas mãos e usa a feia tática de atribuir aos outros erros que eles próprios cometeram, o que traduz conduta infantil, no mínimo. Esta falta de coragem em assumir os próprios erros caminha de mãos dadas com a aparentemente inesgotável capacidade de produzir fatos ridículos. A exemplo de algumas leis descabidas, outras inconstitucionais e muitas que visam a benefício eleitoral e financeiro, a que deveria “quebrar” apenas as sessões da Casa de Leis francana em duas, parece que vai ajudar a quebrar também algumas pretensões eleitoreiras. A credibilidade, em cada situação do tipo, fica fraturada, com danos evidentes para a imagem. Alguns deles, irreversíveis.


Resta lembrar que se os vereadores não lêem nem o que votam, ao menos deveriam dar a devida atenção ao que é publicado - seja na forma de leis ou de opiniões. Informar-se é obrigação de quem tem vida pública.

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários