Três mulheres – lúgubres em algumas representações artísticas e belíssimas em outras – compõem a alegoria da Vida e Morte na mitologia grega: Cloto, Láquesis e Átropos – as Moiras – responsáveis pelos destinos dos homens.
O significado de cada um de seus nomes está relacionado às diferentes e específicas funções que desempenham em separado, embora trabalhem em conjunto e concomitantemente. Cloto – 'Fiar' – segura o fuso e tece o fio da vida; Láquesis – 'Sortear' – puxa e enrola o fio tecido; Átropos – 'Afastar' – corta o fio correspondente àquela vida, causando-lhe a morte. Estamos constantemente 'por um fio', eis que abruptamente a terceira irmã decide, de forma arbitrária, o tempo de nossa existência.
Volta e meia recorro a essa explicação para esclarecer-me o mistério que, na minha visão, cerca a morte, principalmente a morte de alguém ainda jovem com muitas experiências por viver e virgem de emoções boas e gostosas, que jamais experimentará. Há muito abandonei a busca da resposta à pergunta de Vinícius de Morais 'se foi pra desfazer, por que é que fez?' e, por mais que me esforce, não consigo mesmo ver claramente sentido nas perversidades – doenças do corpo e da alma – às quais estamos vulneráveis. Claro que é bom estar viva, sentir, falar, pensar, ouvir, comer, dormir, aprender. Porém a finalidade? Não alcanço o objetivo disso tudo. Toda vez que confronto a vulnerabilidade da existência questiono justiça e sentido da trajetória humana, principalmente quando vejo alguém nascer, crescer, lutar, estudar, ter filhos, apaixonar-se por alguém, casar-se, criar filhos, lutar por fazê-los virar gente, vê-los entrar numa faculdade, sofrer a ausência deles e, no momento de colher as glórias, deixá-los seguir em frente já adultos... partir desse mundo em meio a dores, sofrimento, desespero e tristeza. Na verdade, não acho apenas sem fundamento: acho injusto. Pode ser que exista alguma explicação ou a tal finalidade transcendental, mas nunca as encontrei. Conforta-me muito mais e melhor, imaginar que destino e futuro - se é que precisamos de alguma explicação e crença - dependem daquelas três mulheres absortas em seus ofícios, absolutamente indiferentes ao fado de cada um e que irão puxar nosso tapete a qualquer momento. Essa impessoalidade me soa confortável. Talvez mais que isso: justa. Difícil acreditar em expiação de pecado ou sofrer revezes, a título de purificação.
Recentemente a partida de uma mulher ainda jovem me comoveu. Mais do que eu esperava. Nunca tivemos muito contato: por exemplo, ela nunca veio à minha casa. Eu, sim, fui muitas vezes à dela, para receber lições de Inglês. Sabia pouca coisa dela: que gostava de Norah Jones, por exemplo e nos encontrávamos apenas em festas e reuniões. Primeiro, fiquei chocada com a notícia de sua doença. Sabia que presidira por algum tempo instituições filantrópicas e sempre ouvi falar da seriedade, competência e envolvimento com as causas que abraçava. Presenciei atitudes de mãe zelosa, esposa carinhosa. Durante alguns meses as notícias de que seu estado se agravava todos os dias um pouco mais, chegavam e me doíam. Acompanhei pormenorizadamente, mas de longe, a rápida e letal evolução de seu estado de saúde. Na manhã em que partiu, me peguei chorando por ela, lamentando o fato de que ela não vai ter netos, não vai assistir nem ajudar no casamento dos seus filhos, muito menos ver a cerimônia de suas formaturas – sonhos que verbalizava, ansiosa. Achava-a elegante, gostava de vê-la dançando com o marido: isso também nunca mais vai acontecer. Ela não vai mais viajar, nem receber a visita de seus amigos.
Vieram-me à memória mulheres que vivem brigando com o tempo. Lembrei-me daquelas que procuram minimizar os traços dignos do envelhecimento, com vergonha deles. De outras, que evitam se olhar no espelho, por medo de rugas e pés-de-galinha. De todas elas que estão vivas, mas vivem lamentando os efeitos do tempo. A morte é atroz. Mais atroz que os efeitos do tempo: posso afirmar isso diante do corte brutal do fio da vida dessa mulher, na fase de colher todas as sementes que plantou.
SOL
Ruy Castro conta que em Cambridge, cientistas concluíram que o déficit de memória - tormento dos idosos e evolução que leva ao Mal de Alzheimer - era acentuadamente maior nos velhinhos mais branquinhos: os mais bronzeadinhos, estavam ótimos, por causa da vitamina D, produzida pela pele humana através da exposição do corpo aos raios UV emitidos pela luz do Sol. Banho de sol faz bem à memória! Mamãe jamais acreditaria nisso!
DILEMA
A neta aniversariante (9 anos) pergunta durante o almoço: 'Você vai falar do meu aniversário no jornal?'. Antes que pensasse na resposta, a menorzinha (6 anos) rapidamente se antecipa e responde à irmã, em tom categórico e firme: 'Não! Ela não falou do meu!'. Bem, se digo sim à mais velha, a mais nova vai se chatear. Se digo não, para ajudar na satisfação da mais nova ... a mais velha vai ficar brava. Sério problema!
ASPAS
'Antes era o PC Farias. Agora é o PT Faria. Faria as reformas; faria a distribuição de rendas; faria um governo honesto'. 'A única diferença entre o político e o ladrão é que o primeiro a gente escolhe e o segundo escolhe a gente'.
CHICO XAVIER
O filme superou prognósticos otimistas e sensibilizou pessoas que nunca o viram pessoalmente. Embora alvo de ataques e críticas ácidas por parte de padres em suas perorações religiosas, reforça a tese de sua superioridade espiritual, o que ele detestava e dizia ser sem fundamento. O livro As vidas de Chico Xavier – base do filme – é leitura obrigatória, inclusive para ateus. O homem, revelado pelas suas obras, continua sendo um mistério polêmico e instigante.
Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br
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