O ato de colecionar agrada a gregos e a troianos. No entanto, esse tipo de passatempo consegue mais adeptos entre as crianças. Guardar alguma coisa em série sempre povoou o imaginário infantil. Mas isso não quer dizer que os adultos também não sejam fissurados na prática de juntar objetos os mais diversos possíveis.
Nem mesmo as facilidades da informática tiraram o gosto pelas coleções. A prova está nos recentes lançamentos de álbuns de figurinhas para a Copa do Mundo, com muito sucesso de vendagem.
Um envelope com cinco estampilhas relativas ao próximo campeonato mundial de futebol custa R$ 0,75. Assim, não é qualquer criança que pode participar do rol de colecionadores.
Por sinal, o negócio está tão bom que um grupo armado roubou 135 mil figurinhas em Santo André (SP). A quadrilha invadiu o depósito da editora e manteve 30 funcionários reféns durante o carregamento das 135 caixas. Parte dos assaltantes foi presa no outro dia, mas ninguém declinou sobre o que seria feito com o material impresso.
Como ultimamente a maioria dos colecionadores está entre os adultos, com certeza as figurinhas entrariam numa espécie de mercado paralelo. Criança mesmo só consegue colecionar aquilo que não tem custo. Ou mudou tudo?
Em um passado não muito distante a molecada se deliciava em colecionar marcas de cigarros. Alguns até saiam no tapa por causa de um maço de cigarro vazio achado na rua.
Esses eram os mais bobos. Pois os mais ativos davam um jeito era de fumar escondidos. Nem ligavam para as embalagens desocupadas.
Engraçado! Quem colecionava marca de cigarro não fumava. Talvez por isso, ainda esteja vivo. Essa turma se contentava em brincar, fumando talo seco de chuchu.
Como a fumaça desse tabaco improvisado dava engasgo, por tabela, todos fugiam da nicotina verdadeira. Na época, a brincadeira pode até ter contribuído para a baixa adesão ao nocivo vício do tabagismo.
As meninas não podiam nem ouvir falar em marca de cigarro. Quanto mais, em fumar. Mas os moleques saiam para as ruas somente para procurar cartelas. Quando alguém avistava um maço vazio de Mistura Fina, Lincoln, Fulgor, Macedônia ou até mesmo Camel, com aquele camelo estampado, era uma correria para tomar posse do troféu.
Em casa, o maço passava por um processo de dobradura até ficar parecendo com uma nota. A marca de cigarro era colocada no bolso, como se fosse dinheiro. E servia mesmo como moeda de compra ou troca, em função da raridade. Ou seja, quanto menos consumo um cigarro tinha mais difícil se tornava possuir uma carteira dele.
Em vista disso, poucas crianças colecionavam marcas de Minister, Continental, Hollywood ou até mesmo o famigerado Vila Rica, que fixou o mote 'levar vantagem em tudo' na população.
Hoje, grande parte dos adolescentes de ambos os sexos e até mesmo crianças fumam abertamente, em qualquer lugar. Com mais essa abertura nos costumes, será que andam colecionando o quê?
Antônio Araújo
Professor de redação - tonin.palavras@uol.com.br
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.