Ao início da década de 80 dediquei 4 longos e duros anos à estruturação do CVV em Franca, entidade destinada a ouvir o desabafo de pessoas deprimidas que pensavam em por termo à vida porque não conseguiam soluções para os próprios problemas.
Era uma época diferente. A cidade, monoliticamente industrial, tinha a maior parte da população ligada direta ou indiretamente à produção calçadista. Vivia-se o início da era de ouro da exportação de calçados de couro. As gigantes do setor – Samello, Terra, Pestalozzi, Vulcabrás/Spessotto, Sândalo, Agabê, Palermo, Paragon, Decolores e outras – vicejaram. O dinheiro, em dólares, jorrava com facilidade.
Nas fábricas, quem trabalhava com exportação ganhava bem e alcançava invejável padrão de vida, medido em dólares. O operariado, remunerado em cruzeiros, não. Apesar de considerada padrão de uma das mais especializadas mãos de obra do mundo, o sapateiro francano via seu dinheirosumir, corroído pelo dragão de inflação. Restava muito mês no fim do dinheiro, como se dizia naqueles dias. Entre 1980 e 1984, o País viveu uma grave crise econômica, originada por desajustes na economia. Para que se tenha uma ideia, em 1980, o índice de inflação anual batia em 99,7%, média de 5,93 ao mês. Em 1985, já era 209,1%, 9,86% ao mês. Em 1989, 1.863,6%!!! Em fevereiro daquele ano o índice quase chegou aos 80%!!!
Você ia ao supermercado, via um preço de algo perto do caixa, ia ao fundo e, quando saia, já tinha subido para muito mais. Lembra-se das maquininhas de troca de preços? Então. Quem era remunerado em cruzeiros desenvolvia depressão, ansiedade, vivia tenso o suficiente para discutir com força desproporcional a "origem da pulga". Os consultórios médicos lotavam com as tais doenças psicossomáticas. Ao procurar alguém para conversar, não havia quem tivesse paciência para ouvir. (Aliás, também hoje, não é?).
Neste cenário difícil, em que muitos falavam em suicídio, foi que o CVV surgiu. Havia uma mulher, voluntária, que se tornou plantonista e sempre dizia, alto astral permanente: "vamos lá, gente. Se conseguirmos fazer por apenas um destes que nos procuram, já terá valido a pena". Esta mesma mulher, casada com um agropecuarista, podia ficar em casa, sem fazer nada, mas não. Ela se apresentou ao CVV da mesma maneira com que havia feito também, anos antes, a um movimento de fortalecimento da APAE francana, fundada em 1970 e enfrentando graves problemas de manutenção. Aquele mulher se dividia. Ia a uns e a outros, motivando, cobrando, exigindo, sempre com um resplandecente sorriso a desarmar possíveis confrontos ou tropeços.
Integrou-se aos ingentes esforços para manter uma e outra instituição, alta inflação ameaçando tudo. Era preciso dinheiro para manter "acesa a chama". Na causa dos excepcionais, demandas financeiras cada vez mais exigentes fizeram brotar nela a idéia de um leilão. Determinou: "gado, precisamos de cabeças de gado". Seu marido, José Newton Monteiro, saiu a campo. O evento pioneiro aconteceu e importantes recursos foram gerados. A APAE cresceu.
Construiu sua sede própria. Tornou-se referencial por força de captação de recursos dela, das amigas que jamais a deixaram só (Maria Ignez Archetti, Nenzinha Franchini, Patrícia Pizzo, Horaide Martins Ferreira, Yolanda de Paula Lopes, Elvira Moretti), diretores, famílias dos atendidos e tantos mais. Também ao CVV seu grande círculo de amizades disse presente. Muitas se tornaram plantonistas mas não as cito nominalmente porque a cláusula de anonimato da entidade não permite que se conte. Foram determinantes, sempre animadas por ela.
Dia destes, esta mulher que deveria ter vivido só alegrias mas, por viés do desejo divino e também de suas próprias decisões de vida, sofreu muito, partiu. Hoje, a APAE de Franca faz outro grande leilão, o primeiro totalmente profissionalizado, assinado pelo agropecuarista e filantropo Adir do Carmo Leonel e apoiado por gente vencedora como Luiza Helena Trajano Rodrigues, Armando Antônio Rizatti, Toni Salloum, Mário Roberto Ewbank Seixas e centenas de gestores. Como fez aquela mulher em outro tempo, todos motivaram suas redes de relacionamento à presença e a esquecerem-se do preço comercial que os bens têm para conferir à cada peça o maior valor possível; não à uma boa compra e sim, a um inesquecível gesto de solidariedade.
Então, ai está. Há pessoas capazes de ganhar do mais íntimo de cada outra o que de melhor escondem. Maria Laura de Mello Franco Monteiro, a mulher sobre quem falei e à memória de quem dedico este texto, era assim. As causas que elegeu para si tornaram-se mágicas, apesar de todas as dificuldades. Ela nunca esmoreceu. CVV e APAE foram suas "meninas dos olhos". Certamente, hoje, em espírito, estará presente para tocar corações e garantir integral apoio às "suas" crianças especiais.
ADIR
Está no dicionário Aurélio: "Adir, verbo transitivo direto e indireto, pronominal, significa acrescentar(-se), ajuntar(-se)". Pois é. Se Adir não fosse apenas palavra e se tornasse nome, teria que ser aplicado a alguém capaz de reunir, motivar, acrescentar, de permitir a que outros, convencidos, se ajuntassem em benefício de uma causa, em prol de uma ação. E foi. Adir, que é do Carmo Leonel, agropecuarista por profissão mas motivador social por índole, anda por ai praticando seu nome. Sua atuação como criador de gado é conhecida nacionalmente mas poucos sabem que ele também honra seu nome e sua vida promovendo ações de benemerência dignas de reconhecimento. Fará na APAE de Franca, hoje, o 161º leilão de sua vida, projeto que criou ao início da década de 70 para dar respaldo a crianças especiais. Só "tudo isso" já bastaria a alguém normal, mas não a este Adir: ele também apoia comunidades terapêuticas de recuperação de drogadependentes; viaja para convencer seus companheiros agropecuaristas e grandes empresários a participarem das ações filantrópicas que abraça. Não vive da história do que já fez e continua em atividade. Quer mais para quem realmente precisa. Fantástico exemplo de nome e de personalidade que se encaixam.
Luiz Neto
Jornalista, editor de Opinião do Comércio - luizneto@comerciodafranca.com.br
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