Gorjeta


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Discorrendo sobre sua viagem à França, um amigo meu não se esqueceu de um detalhe. Lá a gorjeta é uma instituição nacional e sagrada. “Pois havia eu”, continuava ele, “acabado de tomar um cafezinho e já ia saindo do estabelecimento quando uma voz enérgica chamou-me:
- Monsieur, monsieur!


Voltei-me para ela e ouvi:
- Le pourboire, monsieur, le pourboire! Era a palavra deles para a nossa gorjeta . Significa ‘para beber’, ou seja, o dinheirinho extra do freguês para a bebidinha do garçom depois do expediente.”


No Brasil, dentre as graves e urgentes preocupações do Congresso Nacional, destaca-se um projeto que regulamenta as gorgetas. Se a lei já tiver sido aprovada ( e nesses casos os projetos tramitam com uma rapidez inacreditável ), o percentual estabelecido será de 20%. A lei é mais um adorno para a superestrutura jurídico-burocrática do “Brasil Legal”, país em que cada vez mais torna-se impossível viver dentro da lei, sem praticar delinqüências e contravenções.


Numa de minhas viagens, sentou-se ao meu lado um senhor baixo, atarracado, falante, extrovertido e profundo conhecedor dos caminhos e descaminhos da burocracia ( ele trabalhava numa dessas Secretarias de Estado). Dentre os sábios conselhos que me deu, um foi sobre as gorjetas. Com muita convicção, que se baseava em sua longa experiência e conhecimento do bicho humano, ele me disse:


- Quando você for a um restaurante, antes de pedir a refeição dê uma gorjeta ao garçom e prometa-lhe outro tanto na saída. Depois peça que o garçom lhe sugira os melhores pratos do dia.


E eu, inocente, indaguei ao meu companheiro de viagem que morava na vizinha cidade de Batatais:
- Mas é mesmo preciso tanta cautela?


E o batataense me respondeu:
- Claro, meu rapaz. Nunca se esqueça de que o bife do almoço pode ser o picadinho da janta e o croquete do amanhã.


Portanto, prezado leitor, se você for a um restaurante nos próximos dias, não se esqueça de pagar os 20%. Porém, pague-os da seguinte maneira: 10% na entrada e 10% na saída. Pague ou torne-se mais um contraventor.

 

Chiachiri Filho
Historiador, criador e diretor por oito anos do Arquivo Municipal e membro da Academia Francana de Letras

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