De cheiros e lembranças


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Sorte minha, minha mãe era boleira, cozinheira, quituteira. Nunca me atrevi a reproduzir perto dela qualquer de suas receitas porque ela sempre botava um defeito aqui, um senão ali e eu não tolerava - isso foi antes da terapia.

Tenho quase certeza que, herança pura, com um pouco de esforço saberia reproduzir os pombinhos de glacê, as rosas de glacê e afirmo, sei fazer, rechear e confeitar bolo, até hoje. O que não tenho mais é oportunidade, nem quem queira comê-los. Anda todo mundo de regime a as noras e filha com relação aos filhos são politicamente corretas: nada de gemas, nada de manteigas, nada daquilo que fazia as delícias da gente, enquanto meninas.


Uma vez, há muito tempo, tive um ataque, peguei o precioso livro de receitas de mamãe (que ela nos obrigou a copiar), escolhi para fazer uma torta daquelas que demoram um século: tem que torrar, depois moer as amêndoas, preparar a farinha de açúcar queimado, assar a massa num forno bento, escolher os damascos, procurar ingredientes especiais nas lojas de especiarias. Hoje, acredito que o processo seja muito mais fácil, todos os ingredientes são encontrados com facilidade maior nos supermercados e e, se não tiver ali, as lojas de produtos naturais quebram o galho...


Pois bem. Fui para a cozinha, comecei a executar. O cheiro passava pela ampla janela da cozinha da casa onde morávamos, ia até o campinho de futebol onde estavam os dois filhos maiores jogando e minha filha torcendo na plateia - o caçula ainda estava grudado comigo. Distraí-me um pouco e de repente lá estavam eles - filhos e o time inteiro - bisbilhotando os afazeres da mãe. Vieram pelo cheiro... Dei um chega pra lá, prometi chamá-los quando terminasse tudo. O processo de execução demorou uns dois dias, que minha mãe nunca fez coisas fáceis. Bati a massa, recheei com as gororobas meladas e açucaradas, encharquei com os licores apropriados, passei a primeira mão da cobertura - manteiga batida com leite condensado - deixei esperando um pouco na geladeira. Atrevidíssima, peguei os bicos de confeiteira, fui imitando os arabescos que via mamãe fazer sobre os bolos. Imitei as rosas do enfeite. Apliquei a farofa doce - maravilhosa - uma mistura de calda de açúcar com amêndoas: derrete-se o açúcar, mistura com as castanhas, estende sobre uma mesa de mármore, depois de frio vai batendo na massa dura com o cabo de uma faca, transformando aquela calda enrijecida em farinha. Por cima, coloquei três rosas feitas à moda de mamãe, mesma massa de manteiga da cobertura que tinha posto para endurecer na geladeira. Pronto! Limpei as beiras do prato, que novamente foi para a geladeira.


Ao terminar estava imunda, embora doce. Fui tomar um banho - com o caçula a tiracolo. Demorei. Ao voltar à cozinha, do corredor ouvi um burburinho estranho. Ao abrir a porta, vi o time inteiro em frente à geladeira: um bando de meninos sentados em volta da mesinha de mármore com dois bancos de alvenaria, que era nosso lugar de café da manhã. De joelhos, apoiando a cabeça com as mãozinhas sob o queixo, admiravam a obra materna, através da porta da geladeira ... escancarada. Achei muita graça, peguei uma faca para cortar minha obra de arte e a surpresa foi grande: eles imediatamente protestaram. Não queriam que eu cortasse: 'Está muito linda, mãe! Deixa a gente olhar mais um pouco'. Só fui servir a torta no dia seguinte. Não comi: o time devorou-a todinha.


Volta e meia lembro-me dessa passagem. Hoje, porque estou sob os efeitos da glória pelo sucesso obtido com a execução, no final de semana, de outra das famosas e complicadas receitas maternas: a torta de chocolate recheada de geléia de damasco, molhada com calda feita de gemas, açúcar e licor, coberta e enfeitada por um glacê de chocolate... Superei-me! A lembrança da cena voltou-me, também, manhã dessas, ao receber de uma amiga, num pacote cheio de fitas, uma toalha lindamente bordada, um bilhete delicado e um vidro de geléia de pimenta: na hora, a exemplo do time de futebol infantil no passado, tive vontade de botar uma cadeira em frente à prateleira onde coloquei o vidro e ficar ali, olhando, olhando... Cheiros e comidas possuem o dom de nos levar de volta à Infância.

 

ASPAS
“Um dos primeiros Presidentes do Brasil foi o Prudente de Morais. Daí para a frente tivemos um monte de presidentes imprudentes e imorais”. (Desconheço o autor).


DESILUSÃO
Há 50 anos, sob protestos, a capital do País era transferida do Rio de Janeiro para uma cidade planejada e construída no fim do mundo, símbolo da prosperidade e da esperança, cujo acesso era apenas através de toscas estradas. O mundo louvava nomes como Niemeyer, Lúcio Costa, Burle Marx e Juscelino. Revistas O Cruzeiro e Manchete cobriam a inauguração da Novacap em amplas reportagens. Recentemente aventou-se trocar seu nome de Brasília para Quadrília. Cartazes com a advertência 'Não roube: o governo detesta concorrência!', estariam sendo espalhados por lá. E contam o novo endereço eletrônico do governo para comunicação com qualquer político: planalto@lheira.gov.br.
 

SUCESSO
O show da dupla Milionário e José Rico. Gerações se encontraram para aplaudir os campeões da música sertaneja. Aposto, fosse feita um pesquisa musical entre os brasileiros, dois sons estariam dentro da memória musical do nosso povo: todo mundo conhece, ou pelo menos reconhece, acordes de Emoções, de Roberto Carlos e Estrada da Vida, da dupla. Particularmente, deles aprecio Sonhei com Você e Vontade Dividida. Sugiro ouví-las do alto das montanhas da Canastra, na Igrejinha, em noite de Lua Cheia.

 

Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br

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