Um homem dedicado aos mais pobres


| Tempo de leitura: 12 min
PRONTO PARA SERVIR - Adair de Carvalho Costa é visto no corredor principal do Abrigo Provisório Municipal em Franca, entidade que administra desde 2005: “Choro muito quando consigo alguma coisa para alguma pessoa”
PRONTO PARA SERVIR - Adair de Carvalho Costa é visto no corredor principal do Abrigo Provisório Municipal em Franca, entidade que administra desde 2005: “Choro muito quando consigo alguma coisa para alguma pessoa”

Estender a mão ao próximo tem feito de Adair de Carvalho Costa, de 49 anos, um homem cada vez mais humano. Casado com a merendeira Carmem Lúcia, 45, é pai de dois filhos - Taísa, 21, e Gabriel, 11 -, mas, se decidir contar os filhos de consideração, com certeza, perderá as contas. Carvalho, como é conhecido, está à frente do Abrigo Provisório, como administrador, desde 2005 e é chamado de pai por muitos dos que ajuda a resgatar das ruas.


Homem de origem simples, nasceu em São José da Barra, Minas Gerais, e foi criado pelos avós. A mãe faleceu quando tinha apenas três meses e o pai seguiu outro rumo, construiu outra família. Carvalho só o conheceu aos 12 anos. Tiveram pouquíssima convivência. Seu pai morreu seis anos depois, quando, alcoolizado, sofreu uma queda na rua e bateu a cabeça na sarjeta. Carvalho se emociona quando fala da sua profissão. Chorou e precisou fazer pausas para conseguir contar a experiência vivida no Abrigo Provisório com uma adolescente três anos atrás. A jovem de 15 anos havia chegado do Paraná e teve problemas com os familiares em Franca. Viciada em drogas, fez do abrigo sua casa até os 18 anos, até que, com apoio dos funcionários da instituição, conseguiu regressar ao Paraná para morar num imóvel da família. A menina chamava Carvalho de pai. “Ela me abraçava e falava que era o pai dela. Minha filha chama ela de irmã”, disse ele. A menina foi embora, mas costuma ligar para conversar com ele até hoje. Carvalho também se emociona quando relembra a história de um senhor de 45 anos que resgatou das ruas. Ele usava os trocados que ganhava pedindo esmola para comprar álcool combustível que bebia misturado com água. Depois de ser acolhido por Carvalho e sua equipe, conseguiu se recuperar, arrumou um emprego e alugou uma casa para continuar morando em Franca.


O esforço para mudar outras histórias continua. Todos os dias Carvalho sai de casa bem cedo para percorrer praças, pontes, cemitério e outros pontos de Franca para tentar convencer quem faz do chão a cama, da rua a moradia, a recomeçar, a viver com o mínimo de dignidade. Mesmo encontrando cenas deprimentes e sendo obrigado a lidar com a resistência das pessoas que aborda, Carvalho não desiste. Para ele, aquelas que consegue ajudar já compensam todo trabalho. A dedicação é intensa. O celular está sempre ligado. Carvalho não deixa o Abrigo Provisório nem para almoçar. Faz as refeições com abrigados. São de 40 a 50 atendidos por dia na instituição. Todo fim de ano, a família se inspira nele e participa da ceia no abrigo, todos juntos.


Carvalho começou a trabalhar aos 14 anos. Antes de ser funcionário público, foi comerciante, bancário e pedreiro. Entrou na Prefeitura em 1992 depois de ser incentivado pela mulher a prestar concurso público para Guarda Civil Municipal. Estava com 32 anos quando foi aprovado. Trabalhou por seis anos na Guarda, mas teve problemas de saúde. Precisou fazer uma cirurgia no coração e, após oito meses de afastamento, a médica o orientou a não reassumir o posto como guarda porque estaria muito exposto a situações de estresse, o que era um risco para sua saúde. Readaptado, recebeu duas propostas da Prefeitura: trabalhar no almoxarifado ou no Abrigo Provisório. Ficou com a segunda opção porque sempre “gostou de ajudar as pessoas”. Ele não se arrepende. Católico, aproveita suas preces para rezar também por aqueles a quem atende.

 

Comércio da Franca -Quando se afastou da Guarda Civil por que escolheu trabalhar no Abrigo Provisório?
Adair Carvalho -
Achei um lugar mais calmo. Fui para o Abrigo como escriturário. Trabalhei quatro anos nessa função e, no mandato do Sidnei (Rocha, prefeito), me tornei administrador.
 

Comércio - O que motiva o senhor a continuar neste trabalho em que, às vezes, é preciso lidar com cenas tristes?
Carvalho -
Todo serviço que faço gosto de fazer bem feito, dou o coração. Aqui é um lugar em que você está sempre ajudando os outros. A pessoa que procura o abrigo já chegou ao fundo do poço. Temos que ter disposição, paciência. Não desligo meu telefone. Às vezes me ligam à noite para resolver problemas. É muito comum termos problemas por causa do álcool. A pessoa chega alcoolizada e quer entrar. O vigilante não permite porque é proibido. Aí, eles começam a chutar o portão, apertar a campainha. E às vezes vêm dois ou mais e começam a tumultuar. O vigilante me liga e venho.
 

Comércio - Qual o perfil das pessoas que encontra nas ruas de Franca hoje?
Carvalho -
As idades mais comuns vão de 17 a 55, 60 anos. São mais homens que mulheres. De mulher moradora de rua, nunca passa mais de cinco aqui no Abrigo. Agora homens são 40, 45. A maioria costumava ir para as ruas por causa do alcoolismo, agora é por causa da droga. A droga é mais usada pelos mais novos, de 17, 22 anos, e o álcool continua mais consumido pelos mais velhos. A droga mais comum é o crack. No desespero por causa das drogas, vão para as ruas porque, se ficam em casa, acabam roubando a mãe, os irmãos... A família não aguenta, e eles vão para a rua. Na rua, também pedem e ganham muito dinheiro.
 

Comércio - A história dos moradores do “piscinão”, prédio da Avenida Major Nicácio, mostrou a resistência deles em deixar as ruas. As pessoas que viviam ali tiveram chance de se tratar contra as drogas, ficar no Abrigo e desistiram. Por que preferem as ruas?
Carvalho -
Às vezes, a gente conversa e eles falam que querem deixar essa vida. Mas só fazem isso quando estão no fundo do poço, não estão aguentando mais ficar na rua. Não dá para entender. Eles precisam de três meses no mínimo de abstinência das drogas para suportarem o tratamento todo. Poucos aguentam. Das 40 pessoas que a gente atende por dia, uns dez precisam se tratar, mas somente dois acabam aceitando.
 

Comércio - Tem alguma história bem sucedida?
Carvalho -
Tem um senhor que encontramos na rua que tomava álcool combustível. Ele chegou e falou que ganhava R$ 0,25 e ia no posto com o carotinho e eles colocavam álcool. Depois, ele completava com água e tomava. Ele estava com a pele descascando nos braços e nas pernas. Tinha 45 anos, era mestre de obras e tinha vindo do Maranhão. Ficou muitos dias no abrigo e até ajudou a reformar o prédio porque entendia de construção. Ele se recuperou, se livrou do vício dentro do abrigo. Quando saiu, teve dinheiro para pagar três meses adiantado de aluguel. Isso faz mais ou menos um ano e ele continua morando na cidade e trabalhando. Ele renasceu.
 

Comércio - Qual foi a reação do senhor quando viu que um homem de 45 anos tomava combustível?
Carvalho -
Isso não me assusta. Não é só ele que fazia isso. Tem muitos que tomam o álcool de posto por ser barato. Sinto que eles estão pedindo para morrer, porque vão morrer. O álcool vai matá-los.
 

Comércio - É comum moradores de rua e famílias desabrigadas se negarem a ficar no abrigo. Por que essa resistência?
Carvalho -
Muita gente não conhece o abrigo e faz uma ideia ruim daqui. Pensam que vão morar com mendigos, mas o abrigo mudou muito. Aqui é limpo, a comida aqui é bem feita. Houve uma boa reforma e colocamos forro, piso, pintamos o prédio todo. Outro motivo de não virem para cá são as normas. Não autorizamos a entrada de pessoas alcoolizadas, não podem entrar com bebidas nem com drogas, limitamos o horário de entrada até dez da noite. Não dá para ficar sem regras.
 

Comércio - Qual o limite de permanência da pessoa no abrigo?
Carvalho -
Cada caso é um caso. Quando a pessoa chega, passa pelo serviço social. Às vezes diz que veio para Franca em busca de um serviço, é migrante. Damos prazo de três dias para observarmos se realmente está procurando serviço na cidade ou está passeando. A gente se acostumou tanto a trabalhar com esse tipo de pessoa e observamos como sai quando diz que vai procurar serviço. Se tiver de chinelo de dedo, bermuda, camiseta e boné, não vai procurar emprego. Isso falo direto para eles. Para procurar serviço, tem que estar com calça comprida, sapato. Esperamos até conseguirem o serviço, quando conseguem, prorrogamos o prazo até receberem salário e poderem pagar um hotel ou alugar uma casa. E eles conseguem trabalhar na construção civil e como chapas. Tem o morador de rua que não tem tempo para permanecer aqui. Vamos organizando os documentos, oferecemos comunidade terapêutica se são drogados ou alcoólatras, tentamos contatos com os familiares. A maioria tem família.
 

Comércio - A Prefeitura paga a passagens para a cidade de origem. O senhor concorda com essa “devolução”? Não seria transferir o problema?
Carvalho -
Fornecemos passagens para Uberaba, Araxá, Sacramento e outras. Mandamos uma menina para Maringá na semana passada e, no caso dela, ligamos lá, a assistente social conversou com a família e perguntou se podia encaminhar a menina, se aceitavam, aí encaminhamos. Às vezes, a pessoa tentou conseguir alguma coisa melhor na vida e não conseguiu, aí damos a passagem para voltarem. Voltando para a cidade, elas têm casa, não vão ficar na rua. Não é transferir o problema.
 

Comércio - Com o frio, o programa Busca Ativa foi intensificado. Como está?
Carvalho -
Estamos fazendo as buscas nas ruas duas vezes, de manhã e à tarde. A gente começa por volta das 7h30 e vai até 10h30 e a partir das 15 às 18 horas. Temos uma perua e saímos com dois educadores sociais. Nestes dias mais frios, temos saído com a Guarda Municipal e a Polícia Militar. A gente percorre praças, a garagem de um prédio perto do Hospital Regional, a Praça João Mendes, a Praça da Igreja Santo Antônio, antigo Posto Modelo para abordar as pessoas. A gente se apresenta e fala que está lá para ajudar. Perguntamos o que podemos fazer por eles, do que estão precisando. Muitos falam que estão na praça para beber cachaça. A gente traz o pessoal que foi acolhido para o abrigo para ver o que pode ser feito. O Busca Ativa quer tentar retirar as pessoas da rua. Temos quase 400 cadastrados pelo programa. Desses, moradores de rua mesmo, que não têm casa, acredito que são uns 30. Os outros vão para a rua para beber ou usar drogas.
 

Comércio - De cada dez abordados, quantos dizem sim para vocês?
Carvalho -
No máximo uns três.
 

Comércio - E por que o senhor nunca desanima?
Carvalho -
Esse serviço é assim. Nós não vamos conseguir falar “Franca não tem morador de rua, não tem pedinte” porque o pessoal de Franca é bom para doar.
 

Comércio - Mesmo lidando há 18 anos com moradores de rua, fica chateado quando a pessoa prefere continuar no frio, no chão, sem comer?
Carvalho -
Olha, a gente não pode trabalhar muito com o coração. Sou muito emotivo, qualquer coisa até choro, mas tem casos que você cansa porque você conversa com a pessoa, fala para ficar uma semana aqui no abrigo para dar uma recuperada e passa dez minutos a pessoa sai para comprar cigarro e vai embora.
 

Comércio - Que história mais te marcou?
Carvalho -
Foram várias. Teve uma menina do Paraná, a Genilda, que ficou aqui com a gente por muito tempo (chora). Ela me abraçava, me chamava de pai (pausa e choro). Era menor, veio com 15 anos e ficou até os 18 aqui. Tentamos muito ajudar essa menina e, por fim, a gente conseguiu encaminhá-la para o Paraná, onde tinha uma casa da família. Ela mexia com drogas. Tinha dia que chegava aqui com o olho fechadinho de tanto chapar na rua. Ela chegava com maconha na bolsa, eu pegava e jogava dentro do vaso sanitário na frente dela e dava descarga. Isso já faz uns três anos e ela ainda liga para a gente (chora). A minha filha tem ela como uma irmã. Elas se conheceram. Minha família vem aqui no abrigo. No final do ano, a gente faz a ceia e minha esposa vem ajudar a servir. Minha família me ajuda muito.
 

Comércio - O senhor considera os usuários seus filhos?
Carvalho -
Sim, tanto para chamar atenção como para doar as coisas.
 

Comércio - O abrigo é para remediar um problema, o que o senhor sugere para prevenir a mendicância e a moradia nas ruas?
Carvalho -
Só se combatesse mais o crack e o pessoal desse menos dinheiro. Se você ficar ajudando uma pessoa que está em situação de rua, você está ajudando ela a continuar na rua. A gente aqui ajuda de forma de diferente, arrumando documentos, tentando arrumar um trabalho, ensinando a pescar. Na rua, as pessoas costumam dar o peixe. Nesse caso, a solidariedade pode prejudicar.
 

Comércio - Como o senhor vê a pobreza em Franca dentro de 10, 20 anos?
Carvalho -
Toda cidade maior tem morador de rua. Vai aumentar. Tem muitos que vêm de outras cidades e nem sabem onde é o abrigo. Chegam, encontram uma turma na praça e ficam dois, três dias junto, bebendo. Se não passarmos e oferecermos o abrigo, como fazemos com o Busca Ativa, vão continuar ali na praça. Por isso tem que ter o programa.
 

Comercio - Qual a maior lição que aprendeu com a pobreza?
Carvalho -
Tem pessoas pobres boas de coração, que dividem o pão. Você pode ver que os moradores são muito amigos. Eles se cumprimentam. A gente, às vezes, nem bom dia recebe do vizinho. Além de serem muito amigos, eles dividem o que têm. Uma vez um rapaz precisava ir trabalhar e não tínhamos calçado para oferecer, aí um outro usuário tirou o tênis dos pés e deu para ele usar e ele só tinha aquele par e nenhuma certeza de que o rapaz voltaria para devolvê-lo.
 

Comércio - O que mais deixa o senhor feliz nesse trabalho?
Carvalho -
É ajudar os outros. É estar vivo para ajudar, ter saúde. Às vezes minha mulher pergunta se não tenho hora para chegar e falo que não, que, enquanto tiver forças ,vou continuar trabalhando. Não tenho hora para sair. Gosto do que faço.

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários