Disse Tiradentes, após ouvir sua sentença: ‘Pois seja feita a vontade de Deus. Mil vidas eu tivesse, mil vidas eu daria pela libertação de minha pátria’.
A história de Joaquim José da Silva Xavier, também conhecido pelas alcunhas de ‘Tiradentes’, ‘Corta-vento’ e ‘o Liberdade’ ainda é muito confusa e há detalhes que permanecem obscuros, indo muito além do mito construído a partir do fim do século 19, quando se formava o governo Republicano em nosso País.
Não pretendemos abordar as qualificações de Tiradentes desde sua orfandade aos 11 anos, passando pelos trabalhos na terra, pelas habilidades de dentista, tropeiro, conhecedor de plantas medicinais, astuto alferes do regimento de cavalaria, geólogo e conhecedor de mineralogia, idealizador dos planos para aproveitamento das águas da cidade do Rio de Janeiro, que solucionou o problema de abastecimento da cidade, dos projetos de canalização dos rios Maracanã e Andaraí, do aproveitamento dos desníveis dos córregos Catete, Comprido e Laranjeiras para instalação de moinhos, dos projetos da construção de armazéns na área do porto que permitiriam a carga e descarga de vários navios ao mesmo tempo e dos serviços de barcas ligando a cidade do Rio a Praia Grande em Niterói etc., mas sim, queremos falar dos interesses existentes na criação de um mito nacional que talvez não tenha passado de um ‘inocente útil’, utilizado numa conspiração de ricos e poderosos que não tinham coragem de se expor diretamente contra a Coroa Portuguesa. Assim ‘ocultos’ fomentavam, incentivavam e financiavam os ideais de liberdade de um simples cidadão idealista e de caráter ímpar que foi entregue à execução para salvar a ‘pele’ dos poderosos ocultos que buscavam somente preservar suas economias.
Tiradentes foi executado em 21/04/1792 e sua figura passou quase que esquecida por mais de cem anos. Ocorre que quando da Proclamação da República em 15/11/1889, era necessário para a adesão popular que se construísse mitos que consolidassem a evolução histórica desse ideal, personificando um Brasil forte e unido. Havia necessidade da existência de um grande vulto histórico para fazer a ligação entre um pequeno grupo isolado que fez nascer um governo. Tal mito deveria possuir o desprendimento de interesses pessoais e da busca constante de liberdade.
As contradições eram muitas e confusas para o povo, pois naquela oportunidade a figura maior da independência era o próprio imperador D. Pedro I, chefe da família imperial. Como explicar ao povo que a figura maior da independência era o próprio chefe da monarquia brasileira?
Foi assim que os responsáveis pelo ‘marketing’ republicano, difundiram ser a inconfidência mineira o primeiro movimento emancipacionista brasileiro, mesmo sem condizer com a verdade. Amador Bueno, em 1640, já aclamava a emancipação do Brasil. A inconfidência tratava da questão econômico-financeira, pois pregava um ‘calote ao fisco’ e não a independência do País.
O passo seguinte dos republicanos foi chamar a atenção para a figura de Tiradentes. Na tentativa de melhor impressionarem a população, associaram sua figura à de Jesus Cristo em função de suas longas barbas e cabelos. Tornou-se assim, a figura e imagem mais conhecida da inconfidência mineira.
Fazendo uma análise comparativa com a atualidade, se os Republicanos que se vangloriam de possuírem os mais altos ideais de liberdade elegeram como símbolo de sua luta a inconfidência mineira, um movimento, como dissemos, que buscava o ‘calote ao fisco’, instituído por lei, como é que reagiriam hoje se em determinado momento alguma região do Brasil se rebelasse contra a alta carga tributária atual e não quisessem mais pagar qualquer tributo ao Estado Brasileiro?
A história brasileira carece de grandes heróis. Tiradentes, apesar de ter sido utilizado como ‘bode expiatório’ por figuras ‘ilustres’ que inclusive dão nome a ruas de várias cidades, foi um mártir, um herói nacional, pois sua imagem foi reconhecida pelos militares que o elegeram Patrono da Nação. Também é reconhecido pelos movimentos de esquerda por sua rebeldia em busca do ideal de liberdade.
Toninho Menezes
Advogado, administrador de empresas, professor universitário -
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