Escultura do Ano Novo


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Já comentei neste espaço a estória das esculturas que coloquei num projeto que realizei para a prefeitura de Franca em 1981, no Jardim Brasilândia. Na época, pedi a dois artistas modernos da cidade que criassem as obras em concreto armado, para reduzir sua depredação. Era a oportunidade de implantar algo diferente numa praça pública, inovador, que não fossem simples réplicas de obras já existentes, como em tantas outras praças. Infelizmente, a do artista Gerson Oliveira foi destruída pela própria prefeitura, provavelmente no auge da primeira crise provocada pela epidemia de dengue, quando os exterminadores de bromélias e outros xiitas do sanitarismo queriam caçar o mosquito a tapa. A outra, do Rodolfo Chiaverini, que era utilizada como local para despachos de macumba, simplesmente evaporou-se, ninguém dava notícia dela.

Tempos depois da publicação da crônica, um amigo me procurou para informar o paradeiro da outra escultura. Ela estava jogada num pátio da secretaria de serviços e obras, como se fosse entulho. Imediatamente, telefonei para o secretário avisando-o que aquele cone truncado e oco encimado por um cilindro de concreto era uma obra de arte, por mais estranho que lhe parecesse. Afinal, engenheiros geralmente são sujeitos cartesianos. Solicitei que a obra fosse recolocada em local público, de onde nunca deveria ter saído e comentei sobre o processo de criação da obra. O secretário prometeu verificar e dar uma solução para o caso. Muito tempo se passou e não veio resposta alguma.

No início de dezembro, estive em um evento realizado na Associação dos Engenheiros e Arquitetos, para inaugurar uma galeria de fotos dos ex-presidentes (fiquei bem na fita como arquiteto com cara de subversivo ornada por longos cabelos que desapareceram há tempos, diferenciado dos ternos risca de giz dos sucessivos engenheiros que dirigiram a AERF depois). Por acaso, apareceu o secretário municipal de serviços Ismar Tavares e logicamente aproveitei para reiterar o pedido de solução para a escultura do Chiaverini.

Último dia de 2009. Saio de casa e vejo funcionários da prefeitura trabalhando na praça do Jardim Consolação, meu reduto desde os anos 1970. Surpresa total: a escultura do Rodolfo Chiaverini estava sendo reassentada, uma atração a mais na praça, pois já temos macacos, brinquedos, bancos, árvores e pássaros. Bom presságio para 2010. Ismar cumpriu o prometido e seu dever como homem público. O Conselho do Patrimônio da prefeitura deveria catalogar e tombar a obra imediatamente e não permitir que isso aconteça de novo. Já avisei o autor quanto ao ocorrido, o artista e médico Rodolfo Chiaverini. Prometo ficar de olho nela, mas não vai ser fácil. Hoje mesmo tive que espantar uns moleques que se divertiam jogando barro na escultura.



 

Mauro Ferreira é arquiteto, escritor

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