Classicus scriptor


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O gramático e crítico latino Áulio Gélio foi o primeiro a usar a expressão que tomo emprestada para o título desta crônica de saudade. Em suas Noctes Atticae, definiu o que seria um escritor clássico: aquele que pela correção da linguagem, pureza de expressão e abrangência de temas constituía um modelo digno de imitação.

Os romanos usavam o adjetivo clássico também na definição do homem que por suas qualidades de indivíduo e cidadão, independente de ser que escrevia, pudesse fazer parte do grupo dos que compunham a primeira classe da sociedade. Eram os que com suas atitudes e ações contribuíam para o engrandecimento do nome da pólis. A herança era grega, já se vê pela etimologia.

Clássico foi empregado então desde Gélio, no século II d C, até os oitocentos, na Europa, quando eruditos alexandrinos selecionaram os escritores greco-latinos considerados modelares. Eles formaram o primeiro cânone sistematizado de que se tem notícia. Como corrente estética o classicismo nunca feneceu. A opção pelo equilíbrio de proporções, a busca pela harmonia, o direcionamento do sentido para a universalidade dos temas continuam motivando prosadores e poetas até hoje. Alfredo Palermo foi um deles.

Enquanto escrevo tenho à minha frente um de seus livros, Letras Avulsas e Ritmos Proscritos, segunda edição, de 2002. Lembro-me do seu entusiasmo enquanto o preparava, acrescentando dez crônicas à edição anterior. E mais três contos que publicara também aqui no Comércio, no período em que o caderno Artes acolhera a produção ficcional de autores francanos. Era assim o Dr. Alfredo, um exemplo de quem sabia administrar seu tempo, fazendo muitas coisas concomitantemente, revendo e revisando a própria obra e acrescendo-a, sem com isso a descaracterizar. Entre o poema O segredo, de uma musicalidade elegíaca, e o conto O Aguadeiro, de tintas impressionistas, vão-se cinquenta anos. Muito tempo cronólogico também separa o ensaio consistente sobre Vicente de Carvalho - O sabiá na Ilha do Sol e a crônica filosófica O Carnaval e a casca de noz. O tempo, que poderia ter alterado o estilo, apenas o apurou. A unidade, que confere identidade e singulariza o artista, perpassa todos os textos, deixando a indelével marca do autor no exercício de todos os gêneros.

Com currículo extenso, obra plural e atuação em muitos segmentos, Alfredo Palermo conquistou admiração e respeito ilimitados. Mas foi com sua coerência interna, seus gestos civilizados, uma linha de equilíbrio que conseguiu manter inalterada, que ele se impôs como homem clássico, no mais profundo sentido do termo. As leituras que fez de Franca em seus textos ajudam a compreender e interpretar a comunidade francana e mostram como amava a cidade na qual nasceu e onde pontificou como professor, advogado, jornalista, conferencista, historiador, prosador e poeta.

Quanto a esta última representação da persona do escritor, é preciso reafirmar que sua poesia alça vôos esplêndidos que lhe garantem perenidade, com versos plenos de sensibilidade e ricos em imagens sinestésicas. Como os de Impressão, o penúltimo do livro de que se fala: “Irmão, somos apenas nelumbos/ à quieta flor da corrente/ ó vãs raízes/ evanescentes”. Ou os do último Insólita esperança: “Quando vier a tosquia/ apresentarei meu rebanho de imagens/ com a lã tosada, em seguida/ farei a clâmide de um poema”. Quase haicais, na concisão dos conceitos e na beleza da forma.

Forma e fundo, continente e conteúdo, estrutura e cosmovisão sempre se imbricaram na obra e na vida de Alfredo Palermo. Sua estética se pautava por esta confluência feliz e bela a que costumamos chamar coerência. Nada surpreendente portanto que este homem duplamente clássico tenha encerrado seu ciclo de vida terrena junto com o ano de 2009, numa coincidência poética que mais realça o seu gosto pelo equilíbrio, pelas proporções, pelas simultaneidades, pelas plenitudes, pelas inteirezas. Mostrou até o fim que o estilo é o homem.



 

Sônia Machiavelli é autora de Uma bolsa grená, Estações, Jantar na Acemira e O poço

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