O nome Herta Müller era quase desconhecido no Brasil até ela ser agraciada com o Nobel da Literatura ano passado. Com a publicidade de seu nome, descobriu-se que em nosso país havia apenas um livro dela, O Compromisso, traduzido do alemão pela escritora brasileira Lya Luft. Herta Müller viveu por trinta anos sob o fogo da ditadura comunista e sua obra ficou impressa também em suas entranhas pelo regime totalitário do ditador Nicolae Ceausescu (1919-1989), que governou o país entre 1974 e 1989.
O Compromisso, escrito por mãos romenas, tem como ponto de partida um bonde que levará a protagonista a um encontro. Ela recebe mais uma das várias convocações do Major Albu (polícia secreta da Romênia) para que esteja numa terça-feira, às 10 horas em ponto, em determinado lugar, para um novo interrogatório. Ao entrar no bonde, o tempo toma uma proporção irreal, como se houvesse uma distensão física e psicológica. Ela não sabe se desta vez voltará ou não ao destino inicial.Por isso leva em sua bolsa toalha e escova de dentes.
Desde o início do relato a personagem principal não é nomeada pela autora do livro, possibilitando assim da parte do leitor várias conjecturas. Lembranças de sua infância, adolescência e maturidade afloram na mente da passageira. Ela se lembra das traições amorosas do pai, sentindo-se também traída por ele. Reflete sobre o fato de sua mãe ter desejado um filho e não uma filha. Imagina o sofrimento de seus avós deportados. Relembra seu primeiro casamento e sua finitude. Resgata a imagem de Lili, sua linda amiga, morta ao tentar fugir para a Hungria. Perfazendo este trajeto dentro do bonde, as teias de sua vida se cruzam. Ela olha o céu e vê em seu imaginário nuvens às quais atribui sentidos. Relembra a noz que comeu, antes de entrar no bonde, pois para ela é bom para o raciocínio e os nervos. Veste a blusa verde, com botões de madrepérola. Passa a criar objetos protetores, amuletos, como se estes pudessem evitar que algum mal lhe acontecesse.
Carrega principalmente a dor de um regime ditador, opressor e gélido, que paralisa todo ato particular e criativo. Está sendo convocada por ter sido considerada uma possível traidora da pátria. Como trabalhadora em uma confecção, pesa-lhe a acusação de colocar bilhetes suspeitos nos bolsos de calças masculinas enviadas para a Itália. A delação tinha sido feita por Nelu, um companheiro de trabalho, como forma de vingança por ter sido rejeitado sexualmente por ela.
Em meio ao regime totalitário, a confiança no ser humano tinha passado a ser algo muito raro. Mas a esperança brotara com força quando ela conhecera Paul. Havia passeado com ele de moto pelos campos de feijões. O vento da liberdade momentânea tocara em seu rosto. Neste regime, Paul e inúmeros romenos tamponavam a dor mergulhados no álcool. Ele na “vodca de capim”. E ela, em seu lago interno, coberto de neve e medo, para o qual passara a deslocar mais e mais as suas angústias e seus terrores noturnos e diurnos. Começava a contar as coisas: tocos de cigarros, árvores, sarrafos, andorinhas. Parecia ter necessidade de colocar ordem externa para controlar a desordem interna. O medo de enlouquecer era grande, mas a esperança soava mais alto. O major Albu a esperava; as torturas também a aguardavam.
O Compromisso é uma história de dor, amor, ambivalência, pulsão de vida, pulsão de morte, poesia. Também mostra um céu de algodão, campos de acácias, tílias. E um coração partido, porém não estraçalhado.
Herta Müller, antes de se lançar como escritora, chegou a ser demitida de seu cargo de tradutora em uma fábrica de máquinas na Romênia, acusada de colaborar com o serviço secreto comunista.
A esperança falou mais alto em sua vida e sua veia de escritora voou sobre terra e mar. O passado reviveu em sua mente. Lembranças da Romênia ficaram inscritas em sua memória, em seu corpo e alma, aonde quer que fosse. A reconstrução humana em meio às tragédias é possível, recordando o mitológico pássaro Fênix, que renasce em meio às cinzas. Tudo isso, é claro, com construção e reconstrução internas.
Serviços:
Nome do Livro: “O Compromisso”
Autora: Herta Muller
Tradução: Lya Luft
Editora: Globo
Páginas: 204
Onde Comprar: Para Ler: 35,00
O Compromisso, escrito por mãos romenas, tem como ponto de partida um bonde que levará a protagonista a um encontro. Ela recebe mais uma das várias convocações do Major Albu (polícia secreta da Romênia) para que esteja numa terça-feira, às 10 horas em ponto, em determinado lugar, para um novo interrogatório. Ao entrar no bonde, o tempo toma uma proporção irreal, como se houvesse uma distensão física e psicológica. Ela não sabe se desta vez voltará ou não ao destino inicial.Por isso leva em sua bolsa toalha e escova de dentes.
Desde o início do relato a personagem principal não é nomeada pela autora do livro, possibilitando assim da parte do leitor várias conjecturas. Lembranças de sua infância, adolescência e maturidade afloram na mente da passageira. Ela se lembra das traições amorosas do pai, sentindo-se também traída por ele. Reflete sobre o fato de sua mãe ter desejado um filho e não uma filha. Imagina o sofrimento de seus avós deportados. Relembra seu primeiro casamento e sua finitude. Resgata a imagem de Lili, sua linda amiga, morta ao tentar fugir para a Hungria. Perfazendo este trajeto dentro do bonde, as teias de sua vida se cruzam. Ela olha o céu e vê em seu imaginário nuvens às quais atribui sentidos. Relembra a noz que comeu, antes de entrar no bonde, pois para ela é bom para o raciocínio e os nervos. Veste a blusa verde, com botões de madrepérola. Passa a criar objetos protetores, amuletos, como se estes pudessem evitar que algum mal lhe acontecesse.
Carrega principalmente a dor de um regime ditador, opressor e gélido, que paralisa todo ato particular e criativo. Está sendo convocada por ter sido considerada uma possível traidora da pátria. Como trabalhadora em uma confecção, pesa-lhe a acusação de colocar bilhetes suspeitos nos bolsos de calças masculinas enviadas para a Itália. A delação tinha sido feita por Nelu, um companheiro de trabalho, como forma de vingança por ter sido rejeitado sexualmente por ela.
Em meio ao regime totalitário, a confiança no ser humano tinha passado a ser algo muito raro. Mas a esperança brotara com força quando ela conhecera Paul. Havia passeado com ele de moto pelos campos de feijões. O vento da liberdade momentânea tocara em seu rosto. Neste regime, Paul e inúmeros romenos tamponavam a dor mergulhados no álcool. Ele na “vodca de capim”. E ela, em seu lago interno, coberto de neve e medo, para o qual passara a deslocar mais e mais as suas angústias e seus terrores noturnos e diurnos. Começava a contar as coisas: tocos de cigarros, árvores, sarrafos, andorinhas. Parecia ter necessidade de colocar ordem externa para controlar a desordem interna. O medo de enlouquecer era grande, mas a esperança soava mais alto. O major Albu a esperava; as torturas também a aguardavam.
O Compromisso é uma história de dor, amor, ambivalência, pulsão de vida, pulsão de morte, poesia. Também mostra um céu de algodão, campos de acácias, tílias. E um coração partido, porém não estraçalhado.
Herta Müller, antes de se lançar como escritora, chegou a ser demitida de seu cargo de tradutora em uma fábrica de máquinas na Romênia, acusada de colaborar com o serviço secreto comunista.
A esperança falou mais alto em sua vida e sua veia de escritora voou sobre terra e mar. O passado reviveu em sua mente. Lembranças da Romênia ficaram inscritas em sua memória, em seu corpo e alma, aonde quer que fosse. A reconstrução humana em meio às tragédias é possível, recordando o mitológico pássaro Fênix, que renasce em meio às cinzas. Tudo isso, é claro, com construção e reconstrução internas.
Serviços:
Nome do Livro: “O Compromisso”
Autora: Herta Muller
Tradução: Lya Luft
Editora: Globo
Páginas: 204
Onde Comprar: Para Ler: 35,00
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Lúcia Helena Goulart Gilberto Pizzo Psicóloga e atua na área clínica |
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