Viver (e morrer) com coerência


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Gabriel Garcia Marquez disse que nada é mais representativo da vida de certas pessoas do que o jeito como elas morrem. Não sei se pensava em seus personagens, especialmente em alguns moradores daquela Macondo mágica de Cem anos de solidão. Não sei se avaliava como haviam morrido alguns amigos, parentes ou conhecidos da sua Aracataca natal. Com certeza não generalizava sobre a gente latina, apenas comentava algumas mortes que se mostravam metafóricas da maneira como as pessoas haviam vivido.

Volto a pensar no tema, pesarosa com a morte de Zilda Arns, com quem pude conversar quando esteve em Franca, em 2004. Percebi de perto com que paixão a sanitarista defendia suas ideias, com que entusiasmo a médica expunha seus planos, com que serenidade a mulher encarava as frustrações que as misérias do mundo tantas vezes impunham ao seu projeto de ajudar crianças em risco. Entendi porque havia sido indicada ao Nobel da Paz, o que voltaria a acontecer dois anos depois.

Sua conversa expressava nas menores frases uma objetividade germânica. Mas longe de revelar frio cartesianismo, o discurso erguia de repente comparações sugestivas e calorosas. Com clareza, simplicidade e afeto, Zilda Arns transpirava sinceridade no elogio ao que agradava. Naquela noite em que jantávamos em grupo, um dos alvos de sua atenção tinha sido a sobremesa preparada especialmente para ela. Soube entender e quis registrar que aquela compota deveria pedir tempo, paciência e arte, além de engenho, às mãos que tinham descascado os frutos e retirado a polpa. Trouxe à prosa a imagem recorrente mas verdadeira que acena para a condição de adoçar o cítrico. Mulher que buscava a transformação daqueles por quem se empenhava, era natural que tivesse visto no doce de limão um poema.

Morreu em ação, depois de ter falado a uma centena de mães, procurando criar estratégias e motivar atitudes básicas para a preservação da saúde dos pequenos. Morreu dentro de uma igreja, no exercício do bem, num país que só tem este nome por convenção. Um dos mais precários espaços do mundo, o Haiti carece de tudo, pois suas estruturas sequer foram erguidas ao longo da colonização francesa que só retirou riquezas sem dar nenhuma contrapartida. Tudo ali é instável, da saúde à democracia, de forma que o terremoto que destruiu moradias e vidas também acabou por desestabilizar por completo a comunidade. Contava-se muito, nos últimos anos, com a ajuda de organismos internacionais ali presentes para a construção de uma verdadeira nação, trabalho que demandaria tempo. Esperavam-se mais apoios como os levados por Zilda Arns. Na tarde em que as placas tectônicas se movimentaram nas entranhas daquele pedaço da Terra, ela fazia aquilo para o qual parecia ter sido predestinada desde sempre: levava sua experiência para melhorar a vida dos pobres, firmava uma parceria e estabelecia uma esperança com mães sem meios de tocar a vida com um mínimo de qualidade para si e seus filhos.

O terremoto causou destruição, morte, muita dor. À hora em que escrevo, manhã de sexta-feira, a TV e a internet mostram cadáveres amontoados, feridos sem assistência, pessoas que caminham desnorteadas, pois perderam tudo e não têm para onde ir. São milhares.

Nossa alma, ao longo da existência, também sofre impactos parecidos nas cercanias de seu magma. Zilda Arns, por exemplo, perdeu o marido em condições trágicas e depois teve que enterrar dois filhos, dor quase insuportável para uma mãe. Mas é no desafio da imprescindível reacomodação que alguns demonstram, mais que outros, sua capacidade de resistir em seus ideais, reagindo com seus valores e amparando-se em suas verdades. Por isso, quando morrem, sua coerência se torna altissonante, sua história parece ter sido escrita como um roteiro prévio. São estas pessoas que fazem a diferença, legando contribuição aos que ficam. Parecem intuir, desde muito cedo, que uma vida só se torna significativa se causar impacto positivo em outras vidas. Então buscam realizar este objetivo fazendo o que podem, onde se encontram, com o que têm nas mãos e no coração. Impossível esquecê-las.

Hoje, em Curitiba, sepultam o corpo de Zilda Arns. Só o corpo.



 

Sônia Machiavelli é autora de Uma bolsa grená, Estações, Jantar na Acemira e O poço

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