Chico Franco


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-Chico Franco, seu criado.

Muitas pessoas andam desacostumadas de atitudes corteses, de algumas expressões, de algumas palavras. Então, ficam espantadas ou curiosas diante dos modos do homem magro e alto. Algumas vezes, inclusive, é o espanto e é a curiosidade que estimulam diálogo.
– Como é mesmo o seu nome?
– Chico Franco, seu criado. E sua graça, qual é?
– Einh?

Não raro, suas vestes também causam estranheza: terno, habitualmente de linho branco, camisa e gravata de cores sóbrias. Faça chuva, faça sol, nunca dispensa o chapéu, e a bengala só é esporadicamente substituída pelo guarda-chuva no verão. Assim , tudo nele conflita com as camisetas coloridas, repletas de inscrições, e com as bermudas que cobrem os joelhos, parte das canelas. Conflito maior existe entre os sapatos engraxados e as chinelas de dedos e os tênis que entopem as calçadas.

Chico Franco já viveu mais de oitenta e cinco anos e é exemplo típico da seleção da espécie. Criança frágil, surpreendeu a expectativa de todos, inclusive dos pais. Driblou o sarampo, a catapora, a caxumba, a paralisia infantil, as dores de ouvido e de barriga, as febres constantes. E vingou.

Exerceu, na mocidade, trabalhos os mais duros, no campo e na cidade.

Quando Hélio Palermo se candidatou a prefeito, Chico virou cabo eleitoral. Começou lá no Bom Jardim, passou pelo Engenho Queimado e visitou quase todos os sítios e fazendas da região, pedindo votos para seu ex-professor primário, no Grupo Escolar Barão da Franca.

Hélio Palermo foi eleito e foi grato. Arranjou emprego para o ex-aluno. Colocou-o no Cadastro, sob o comando do Denis Dinei de Lima.

Naquele tempo, os funcionários do Paço (onde hoje está instalado o Museu Municipal José Chiachiri) trabalhavam de paletó e gravata. O rapaz assimilou o gosto pela vestimenta a que os invejosos da Vila Nova, onde morava, chamavam de baixeiro. Chico fazia ouvidos de mercador e tornou-se cliente assíduo do Antunes Alfaiate.

Quando foi promulgada a Constituição Brasileira de 1988, ela regularizou a situação do funcionário público não-concursado, mas que estava na função há mais de dez anos. Chico Franco adquiriu direito à estabilidade, agradeceu à alma de Hélio Palermo e, assim que pode, aposentou-se.

Hoje sua atividade é perambular, a pé, pelas ruas da cidade. Infelizmente, nos últimos tempos, não tem caminhado só.

A esclerose insiste em fazer-lhe companhia.

Estava, dia desses, ali nas proximidades do Banco do Brasil. Parecia inseguro e preocupado. Então, um senhor abandou a fila dos aposentados, tentou ajudá-lo.
– O senhor quer atravessar a rua?
– Não, não, jovenzinho. Estou meio confuso... Preciso ir lá na Rodoviária.
– Ah, o senhor vai viajar?
– Não, não. Quero encontrar o Zé Biloca. Acho que meu cabelo está caindo... E remédio para calo e para queda de cabelo não tem Manezinho da Farmácia, não tem doutor nenhum... Só o Zé Biloca.

O interlocutor abriu olhos e boca.

Zé Biloca fez história, foi camelô famoso na cidade e região. Quando Sílvio Santos ainda vendia caneta na Praça da Bandeira, em São Paulo, Zé Biloca já reunia muita gente ali na Praça do Correio, sob a promessa de que mostraria para todos uma cobra que fumava. Enquanto a cobra Catarina se preparava para a função, escondida numa mala, o camelô ia apregoando as qualidades do remédio contra calos, contra queda de cabelos. Além dos remédios, vendia tesouras, facas, cortadores de unha, canivetes, o diabo.

Antes, porém, que o assombro do outro se expressasse em palavras, Chico Franco indagou:
– Aquela ali é a Rua dos Bondes?
– Não, aquela é a Rua General Osório.
– É a mesma coisa... Para ir lá para a Mogiana, eu viro para cá ou para lá?

Caridoso, o homem o acompanha até a esquina.
– Desce aqui. Não vire pra lado nenhum. Vai reto que o senhor chega lá na Estação.



 

Luiz Cruz de Oliveira é professor, escritor, membro da Academia Francana de Letras

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