Quem será o Fausto do livro?


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Tempos atrás, movido por uma ideia que apareceu na Europa e se esparramou por todos os lugares, procurei o Cruz para ajudar a viabilizar uma proposta de divulgação da leitura na cidade. Na Europa, as pessoas deixam livros nos bancos do metrô e das praças, que outras pessoas pegam e vão deixando em outros lugares, depois de lidos. Ou seja, o livro e as ideias circulam gratuitamente, uma internet em papel. Aqui no Brasil, algumas cidades já desenvolvem a experiência, que dá certo, o número de furtos e livros estragados é muito pequeno.

Eu e o Cruz tentamos levar adiante o projeto com a empresa local de ônibus urbanos. Haveria uma estante no terminal central de ônibus com os livros dos escritores de Franca e de quem mais se dispusesse a colaborar. As pessoas poderiam pegar livremente os livros, ler durante a viagem e depois deixar no próprio ônibus, para outros poderem fazer o mesmo. A gente iniciaria com as nossas próprias sobras de livros encalhados, contando depois com a solidariedade dos leitores conquistados para a expansão do movimento. Obviamente, enviamos a proposta, mas sequer fomos recebidos pela direção da empresa e nem obtivemos qualquer resposta. Sonhadores sem apoio, fomos fazer outras coisas, enveredei pela criação de um museu de arte moderna, o Laboratório das Artes e o Cruz fez muito mais, tornou-se imortal.

Esse tipo de ação de rua não é muito comum em escritores, geralmente sujeitos estranhos, reclusos e pretensamente intelectualizados, quando não gabolas, embora existam aqueles que vendem livros nos bares à noite, principalmente nas grandes cidades. O mesmo tipo de ação já acontece também na Europa em relação ao uso de bicicletas nos centros históricos, onde o governo municipal de algumas cidades mantém uma frota para uso gratuito da população, que usa e deixa nos bicicletários, para uso coletivo. Paris já está aproveitando a deixa para alguém ganhar dinheiro fazendo locação de bicicletas.

No entanto, para meu completo espanto, navegando na internet, encontro um livro que escrevi no início da década de 1980, “Franca, itinerário urbano”, sendo vendido num sebo virtual paulistano. O preço espantoso de cento e trinta reais pelo exemplar era valorizado, segundo o site, pelo autógrafo do autor e pelo seu bom estado de conservação. Não havia dúvidas, devidamente scaneada, lá estava minha assinatura e uma dedicatória de 1985 a um certo Fausto, que não me lembro quem é. Só sei que ele se desvencilhou do livro para jogá-lo na rede mundial de computadores a um preço que nunca imaginei. Ainda tenho alguns exemplares, que ia disponibilizar para o projeto de leitura gratuita, mas como não deu certo mesmo, vendo bem mais barato que o sebo eletrônico e com o devido autógrafo. Alguém interessa?



 

Mauro Ferreira é arquiteto, escritor

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