Outra viagem


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A viagem, rumo a Salvador. O mesmo grupo de pessoas amigas, alegres, tudo bem programado e o pacotão pra passageiro nenhum botar defeito, a não ser a loira artificial, nariz empinado, que chegou pisando alto e olhando de esguelha como se ali só ela tivesse importância. Então, por que fazer parte de um pacote de viagem? Por que não um avião fretado exclusivo?

Pouco depois, como se não bastasse, acreditem, chega a loira para ser minha companheira de quarto. O critério eu não soube, mas que susto, que raiva, que sac...

Pedir a troca de aposento seria indelicado, pois não sou presunçosa. Aguentei firme e observei a bagagem da loira no mais legitimo couro, ao lado da minha, aquela em curvim que comprei na praça do Correio.

Já no quarto do hotel e a loira parecendo surda e muda a ajeitar os seus pertences entre sapatos, roupas, bolsas, no mais alto estilo. Os seus cosméticos, imaginei fossem importados da França, enquanto que os meus, do Paraguai. Foi quando eu vi, juro que vi, a loira retirando da maleta aquele frasco verdinho de plástico, o popular e refrescante Leite de Colônia, o “embelezador da pele”, conhecido desde os tempos da minha avó, o que eu também uso, mas que não deixa minha pele branquinha como a da loira de nariz empinado.

Juntas, ela e eu naquele quarto, impregnado pelo o perfume do Leite de Colônia, cada uma olhando de lado, pensei em fazer ou dizer alguma coisa que pudesse maneirar o desconforto do ambiente e arrisquei:
- Ilustre desconhecida, o meu verdinho já está acabando, você me empresta o seu?

Só isso bastou para cairmos na risada.

A loira artificial de nariz empinado, devo dizer, é hoje uma grande amiga.



 

Farisa Moherdaui é professora aposentada

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