Parece que, todo dia, metade da cidade passa pela Praça Barão da Franca.É madrugada ainda e já uniformes brancos vêm do Terminal de Ônibus, por aqui passam apressados, em demanda da Santa Casa de Misericórdia e do Hospital Regional. Meia hora depois, a mesma brancura faz o caminho inverso, buscando ônibus que levam homens e mulheres cansados aos bairros periféricos.
O sol espia trabalhadores e estudantes cruzarem o local que, aos poucos, se vai povoando de aposentados e desocupados outros que, durante o dia, habitam a praça.
Indiferente ao vai-e-vem, um velho está parado na praça, diante do Senhor Café. Ninguém parece observar sua quase exótica vestimenta: terno, gravata, sapatos engraxados, bengala na mão direita.
De dentro do estabelecimento, alguém reconhece o velho, chega à porta, faz convite.
- Chega aqui, Sô Chico, vem tomar um café.
O homem caminha devagar até à porta, tira o chapéu antes de entrar.
- Bom-dia, jovem. Se mal lhe pergunto, qual é a sua graça?
- Sou o Moacir de Almeida, Sô Chico.
-Virgem...mil perdões... Mas é o menino Moacir de Almeida, o vereador. Mil perdões... é que a minha vista não anda muito boa...
- Não preocupa, Sô Chico. Vem, vamos tomar nosso café.
- Nossa, quanto tempo faz que a gente não se encontra... Mas eu não esqueci nossa amizade, não. Lembro tudo como se fosse ontem... Você foi eleito junto com o Maurício Sandoval Ribeiro, nas eleições de 1976, não foi? Você entrou na Câmara em 1977, e eu cheguei antes, bem antes. Eu fui nomeado pelo Hélio Palermo, trabalhei no Cadastro, junto com o Denis, desde 1964. Só saí da Prefeitura aposentado...Em 1969 chegou o Doutor Lancha e o seu vice, o Correa Neves. Ele foi prefeito bom, não mandou ninguém embora...
E o velho despeja no ambiente todo o fluxo de suas lembranças.
Explica que, quando o Doutor Lancha assumiu, o atual prédio da Prefeitura estava inacabado, então o prefeito utilizou o lugar para a realização da primeira Francal. Entusiasmado com a idéia e com o sucesso inicial, a segunda feira foi realizada no campo do Palmeirinhas, lá na Rua Santos Pereira. A seguinte ocorreu nas dependências da Ceagesp, lá no começo do bairro São Joaquim. Em 1972, finalmente a Francal inaugurou prédio próprio, lá perto do Poliesportivo.
- Nossa, o senhor lembra de tudo.
- Na Francal de 1972, o governador Laudo Natel veio na festa, junto com o Secretário de Transporte, o Paulo Maluf.
Pra Franca, aquilo tudo foi uma beleza. Pras indústrias tem um antes e um depois da Francal.
Com suas palavras simples, talvez o velho não se dê conta do quanto resgata da história calçadista e econômica de Franca.
- Puxa, que memória! Quantos anos o senhor tem?
- Oitenta e cinco... mas tenho cabeça de elefante, guardo tudo, tintim por tintim... Se mal lhe pergunto, qual é a sua graça?
- Moacir de Almeida.
- Chico Franco, seu criado. Moacir... Moacir... Acho que estou lembrado... Você não era radialista?
- Era.
- Ah, eu sabia que você não era estranho. Minha memória nunca falha... Mas eu peço licença pra retirar... Preciso caminhar, eu moro longe, depois da estação da Mogiana... Até logo.
- Adeus, Sô Chico. Vai com Deus.
Chico Franco sai do café e caminha em direção à Rua do Comércio. A bengala não evita encontrões, mas ajuda a restabelecer o equilíbrio cada vez que algum jovem apressado esbarra na caminhada lenta do velho.
Os olhos de Moacir de Almeida, desde a porta do café, acompanham a silhueta de Chico Franco. Quando ela desaparece em meio às pessoas, as retinas do ex-vereador, do radialista, conservam o vulto. Está, porém, trinta e cinco anos mais novo e, atrás de um balcão, assessora o Denis, é especialmente prestativo com o público e com os edis recém-empossados.
E Moacir se surpreende refletindo sobre a tarde que chega. As pessoas, os amigos se vão escasseando, o barulho se indo, aos poucos, lá para o Terminal, deixando espaço para o silêncio. Este, sorrateiramente, se aninha nos canteiros e nas árvores, enquanto estimula os sons de aves noturnas.
Luiz Cruz de Oliveira
Professor, escritor, membro da Academia Francana de Letras
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