Tropeçando...


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Quase sempre quando estou prestes a me achar o máximo, em determinado aspecto, é que acontece o maior susto...  Vivemos atravessando fases e, quando estamos empolgados com uma delas, começamos a achar que já demos o melhor e que o caminho é aquele mesmo. É aí que tropeçamos. A vida, geralmente, nos mostra a realidade através dos tombos. Acredito que é dessa forma que ela nos diz: “Olhe melhor à sua volta”, “Não fique olhando só para o seu umbigo!” E como é fácil olharmos apenas para o nosso pequeno mundinho...


Tropeçar é acordar de um sonho supostamente bom. O tropeço é como o sino destinado a alertar... É o início da humildação. Sim, o dicionário nos traz essa palavra, embora pouco conhecida entre nós. É a virtude que nos dá o sentimento da nossa fraqueza. Também temos humildade e humilhação. Todas as palavras vindas do mesmo radical latino humus, terra. Humildar-se é voltar-se para a raiz, para o chão, para o pó de onde viemos e para onde voltaremos, sem grandes especulações. Então é que enxergamos aquilo que podíamos ter feito pelo outro e não fizemos , ou ainda, aquilo que não deveríamos ter feito e fizemos.


No eterno jogo de “eu não queria dizer isso”, “ou “não foi bem assim”, “você me interpretou mal”, “não tive essa intenção” “eu nunca faria isso!”, vamos nos enganando, nos engabelando e nos engalanando com duvidosos enfeites coloridos para falsear a verdade e empurrar a humildação.


Mas chega o momento de enxergar e então vem o tropeção. É a hora de gritar. Sim, porque primeiro gritamos de dor, de cólera, de raiva mesmo. Aproveitamos para gritar pelo presente, pelo passado e, quem sabe, até pelo futuro. Depois nos deparamos com a nossa limitação de não entender. Um não entender sem fronteiras. Uma incapacidade que ultrapassa nosso ser inteligente. E só então percebemos nossa pequenez...


Aí, finalmente, é o grande momento se soubermos aproveitá-lo. Junto com essa humildade de ver o que não queríamos enxergar vem a compaixão por nossa humanidade. Compreendemos o verdadeiro sentido do humus, do pó, da efemeridade permanente em todas as nossas ações e reações. Nos vemos pequenos para trilhar caminhos grandiosos, mas aceitamos essa forma humana e falha que quase sempre nos engana, mas nos faz caminhar. Somos empurrados, tropeçamos, caímos... E é justamente quando olhamos para para baixo é que começamos a nos erguer. É quando nosso coração começa a se abrir.... Pois, quando o coração se fecha, o que é necessário para tocá-lo? Acredito que apenas um novo fôlego, um gesto de madura confiança no Absoluto é que nos dará o milagre do recomeço.


“Navegar é preciso”, disse o poeta, mas tropeçar nos conduz ao Essencial.    

 

Jane Mahalem do Amaral
da Academia Francana de Letras

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