Sou daqueles que escreviam cartas a mão, antes da era da informática.
Não importava se o destinatário fosse algum primo que morasse em outra cidade, um amigo, tio ou tia, namoradas fiéis ou nem tanto. O processo era sempre o mesmo, emocionante sob todo o ponto de vista.
Comprava-se um bloco de papel de cartas, alguns envelopes tarjados com as cores nacionais verde e amarelo e punham-se engenho e arte a serviço da comunicação escrita.
Começávamos com um invariável Espero que esta vá encontrá-lo gozando de saúde junto aos seus... E depois, as pequenas notícias que contextualizavam o nosso mundo de adolescente, geralmente notícias de escola, de um último filme ou seriado de matinê, a família, a festa de aniversário...
Dobrava carinhosamente o papel, ajeitava-o com cuidados extremos no envelope e me dirigia ao correio mais próximo para a colagem do selo com goma arábica e a postagem. Pronto, agora é que começava a magia das correspondências de então.
Tanto na ida, quanto na resposta da volta sonhávamos com a viagem das cartas expedidas e recebidas.
Deveria ir num malote de lona marrom, ou num saco de lona verde usado pela empresa de correio. Da agência, talvez fosse de bicicleta para o ponto de ônibus ou para a estação de trem. Tomava seu lugar no porta bagagens. E ganhava as estradas de terra, de asfalto ou mesmo de ferro.
Sempre duvidei da postagem que se dizia “Com urgência”. Este envelope trazia a imagem sugestiva de um avião. Mas como uma carta seguiria de avião saindo de Franca para a cidade de Altinópolis? Não, melhor seria que a carta passasse por postes telegráficos, árvores, campos, cerrados, montes, ou seja, o mesmo cenário que a memória de então guardava quando se pensava no território que separava minha cidade da dos outros queridos. Não, definitivamente a carta seguiria por terra. Era mais seguro e a expectativa estaria completa.
A resposta durava cerca de quinze a vinte dias. Ou seja: um mês era tempo de se escrever e receber a resposta.
Esta não era menos emocionante. O carteiro chegava ao portão e gritava “Correio!” ou simplesmente o nosso nome. Íamos correndo recebê-la das mãos suadas do mensageiro. Certificava que a carta era realmente para mim. Depois virava o envelope e lia o remetente. Tudo manuscrito, com caneta tinteiro azul marinho.
Abria o envelope como se exercitasse um ritual bendito. Quantas promessas, quanta imaginação... Às vezes uma fotografia fazia parte do conjunto. E me sentia reconfortado, tranquilo, algo dizendo que alguém distante também se lembrara de mim e resolvera fazer com que eu tivesse certeza de que tudo corria bem... Por uma simples cartinha. Não era gentil?
Recebi tantas cartas e respostas, mas não me lembrei de guardá-las. Como me arrependo de não tê-lo feito, já que teria em mãos, hoje, a prova concreta de uma época em que se corria menos e se vivia intensamente.
Não as tenho comigo hoje. Apenas faço uso do E-mail, MSN, Orkut, Facebook e pela tela do computador fico sabendo em segundos o que se passa com o meu correspondente, esteja ele em Altinópolis ou Teerã.
Não sou contra a evolução, o progresso, a velocidade da informação e comunicação, a justeza das coisas e sua adequação ao princípio irreversível e inexorável da história das civilizações, mas nem de longe o correio eletrônico traz para mim a mesma sensação de antigamente. A carta virtual prima-se pela economia de palavras, pela frieza do emprego do termo exato, pelas abreviações. Onde os postes, as montanhas, os prados, os fios elétricos, o carteiro gritando meu nome, as viagens, o trem, o ônibus, os malotes de lona, a folha de papel perfumada pelas mãos da namorada com quem nunca eu iria me casar? Onde a simplicidade do Espero que esta vá encontrá-lo...?
Se ganhamos com a evolução nas comunicações, perdemos feio para a emoção da correspondência manuscrita. Com certeza, esta situação é mais uma entre centenas de causas do empobrecimento imaginário dos jovens e adultos de hoje, assim como a sua tristeza provocada pelo que, sem saberem as causas exatas e definidas, andam chamando de estresse, depressão e ansiedade.
Everton de Paula
Professor, escritor, conferencista. Fundador e membro da Academia Francana de Letras
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.