O VISITANTE, o filme, hoje!


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Neste sábado temos Ana Márcia V.P. Rodrigues, psicanalista em formação pela Sociedade Brasileira de Psicanálise de Ribeirão Preto, a comentar o filme O Visitante. No Centro Médico, sede campestre, às 15 horas.


O personagem principal, desempenhado por Richard Jenkins, tem uma performance espetacular, como um professor entediado, melancólico, que “finge” estar escrevendo um livro, para se livrar das aulas. A solidão do professor ganha contornos depressivos: o professor está de luto, perdeu sua mulher e, de alguma forma, tenta resgatá-la através da música, tentando aprender a tocar piano.


Na abertura do filme, recebe uma senhora que usa de técnicas infantis para ensiná-lo a posicionar os dedos de forma correta nas teclas do piano. Obviamente ele não a aceita como professora, e estava na sua quinta tentativa.
Este movimento de identificação com a pessoa amada, depois que ela se foi, é o núcleo da depressão. Em psicanálise, quando ela se torna mais grave e renitente, a chamamos de melancolia. A pessoa enlutada “morre” junto com o morto, e é lenta e laboriosamente que se recupera do baque emocional.


O “final a contento” para uma depressão pós-luto é o retorno à vida, quando a pessoa incorpora traços adquiridos no convívio com o ente - amado e perdido. Quando o luto não se processa de maneira “normal”, ocorre um isolamento, a pessoa se torna um zumbi permanente, como se “visitante” na própria casa, exilado do próprio corpo, da própria alma.


 A palavra “visitante” está bem escolhida como substantivo e adjetivo, comum aos dois gêneros. O estado emocional do professor “vem de outro lugar”, da alma, ele está exilado da Vida.


Quando vai para o seu apartamento em New York (dava aulas em outra cidade, próxima) ele o encontra ocupado por um casal de imigrantes (ela africana e ele sírio). O professor mais parece a visita na sua própria casa. Cede um quarto ao casal, já que sua situação era crítica, sendo imigrantes ilegais.


Daí em diante acontece uma transformação no professor e o vemos sair de sua concha de dor. Acorda para a vida!
O processo do luto foi tema de Freud, em um ensaio de 1917, “Luto e Melancolia”, onde trabalha um dos conceitos psicanalíticos mais importantes para a compreensão de que o “eu” é derivado de inúmeras experiências emocionais com o “outro”. Freud, provocativamente, chamava o “eu” de “cemitério de investimentos emocionais (“catexias”) abandonados”.


Roudinesco, psicanalista francesa, cunhou uma expressão interessante para o melancólico, dizendo que ele sofre de uma “hemorragia libidinal”, ou seja, é esvaziado, interiormente, por excesso de investimentos emocionais dirigidos para fora de si. Não por estar à procura do “outro”, mas por estar à procura de um ideal de “si mesmo”, perdido para si.


O professor não é, ao que parece, um melancólico. Ele estende um fio de confiança ao “outro”, representado pelo imigrante sírio, e emblematicamente aprende - com ele - a tocar tambor, instrumento rítmico, pulsante, como a batida do coração, universal, símbolo da Vida. Vibra suas cordas musicais da alma através da empatia com os imigrantes desventurados.


Constituímos, na nossa humana trajetória, um tipo de “coral” de múltiplas faces, tantas quantas nossa capacidade interior permite, no contato vivo com aqueles que amamos e desejamos conservar.


No fundo da alma, como no fundo dos oceanos, decantamos (quando não nos esvaímos “hemorragicamente” para fora de nós mesmos) nossas mais fundas riquezas psíquicas e espirituais: aquelas com as quais nos reconhecemos semelhantes.


Aguardamos todos os “visitantes” e também os que já são “de casa”, para mais uma tarde francana, sabática, profunda e terna!

Serviço
Título: O visitante
Autor: Thomas McCarthy
Genero: drama
Duração: 103 minutos
Onde alugar: locadoras
 

Maria Luiza Salomão
Psicanalista e Psicóloga, membro da Academia Francana de Letras

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