Os Nardoni foram condenados. Depois de dramático julgamento, condenados, pelos próximos anos estarão trancafiados, excluídos da sociedade, pagando pela maldade que cometeram. Ou se acredita ter sido cometida por eles: não há prova conclusiva, ocular, do momento no qual Isabella foi jogada.
Todas as evidências levam à conclusão da culpabilidade do casal, o que os condenou. Não se lamenta o veredito, porém existe, no fundo, uma suspeita no ar. E tem mais: a sociedade os havia incriminado muito antes do julgamento formal. Aposto: fossem políticos, estariam fora de qualquer julgamento.
Centenas de 'Isabellas' foram 'jogadas' pelas janelas das casas arrastadas pelas chuvas no Rio de Janeiro. Não foi Deus que quis assim. Não foi castigo divino. Não foi a chuva que as matou. Nem foi fatalidade: a tragédia era previsível, assim como eram previsíveis, desejáveis e contabilizados os votos a serem dados aos políticos que sustentaram a formação e a manutenção de favelas, no caso, as cariocas. Pobre não escolhe onde morar, diz uma amiga. Mas pobre vota e acredita no homem que escolheu para seu representante e defensor dos seus interesses. Não haverá julgamento nesse caso. Esse tipo de catástrofe geralmente é atribuído ao Divino, que testa a capacidade de tolerância dos humanos e, sempre, 'escreve certo por linhas tortas'. Deus está fora de julgamento e os políticos, inatingíveis. Ninguém foi condenado.
Milhares de 'Isabellas', diariamente são atiradas nas ruas das cidades por familiares que as usam para ganhar dinheiro. Há verdadeiras quadrilhas que se utilizam da aparência frágil e desprotegida desses seres a fim de aumentar a arrecadação de fundos e manter o uso de bebida, cigarro, das drogas em geral, usadas pelas drogas de seus membros. Há 'aluguel' de crianças para mendicância. Na mesma linha, visando arrecadar dinheiro, há mulheres com muitos filhos - um de cada pai - variedade cuja finalidade maior é conseguir pensão alimentícia de várias fontes e garantir bem-estar e ócio maternos. Na maioria desses casos, os filhos também são atirados às feras. Nunca soube de alguma mãe preguiçosa que tivesse sido punida, pelo menos com a obrigatoriedade de trabalho forçado. Não há registro da condenação de locador, nem de locatários.
Dezenas de milhares de crianças, de Isabellas, são usadas para os pais receberem bolsas do governo, o que supostamente as tiraria do mercado de trabalho. São jogadas nas calçadas porque os programas de assistência se mostram insuficientes em número para atender todas elas. Presas fáceis dos desocupados, estão por aí, sem ter o que fazer. Ninguém foi punido: não há quem punir. E o responsável pelo malbarato do programa, tido e havido como pai dos pobres: Getúlio Vargas está lentamente perdendo o trono do populismo. Meninas menores de idade - Isabellas em suas tragédias pessoais - são atiradas à prostituição. Na mídia, muitos homens se mostram indignados embora alguns deles, às escondidas, se aproveitem delas. Quando isso acontece e os acusados de abuso são políticos, ou amigos de políticos, nunca houve julgamento formal ou informal. Esses nomes são salvaguardados e protegidos. Se descobertos, no máximo publicam-se suas iniciais. Meninos menores de idade, tão inocentes quanto Isabella, são, todos os dias, encaminhados a instituições e pessoas para serem apoiados, protegidos e orientados em direção à possibilidade de vida melhor. Os pais que os entregam: por qual motivo fiam tanto? Desconhecem a natureza humana?
Tais crimes do cotidiano, acobertados ou açucarados pelo anonimato das vítimas, merecem ser vistos com mais seriedade. Atacar os Nardoni é fácil, difícil é não relativizar ações criminosas e passar a exigir punição para todo e qualquer tipo de transgressão, salvaguardando a integridade das pessoas e da sociedade como um todo. O voto é uma excelente arma, por um lado. Por outro, sugiro que peguemos a indignação aprendida com a Nardoni e a apliquemos para suavizar a vida de outras Isabellas com fome, com sede, com frio, com desejo de serem amadas, tantas outras meninas por aí.
PRISÃO
Quando leio sobre a prisão do Arruda, o de Brasília, ponho-me a imaginar qual o verdadeiro motivo de sua punição porque atitudes e atos muito piores já foram vistos - do Sarney, por exemplo - e nunca foi divulgada qualquer medida da justiça contra ele.
ABORTO
Falar de aborto perto de pessoas muito religiosas é procurar motivo para briga e cara feia, fora a possibilidade de banimento do grupo social. Assunto tabu e proibido, mas quando se questiona a atuação efetiva de cada um visando resolver a situação das crianças sem lar, sem educação, sem família, a cara-de-paisagem substitui a cara-feia, e só se escutam afirmações de contribuições financeiras para essa ou aquela instituição ... quando solicitadas.
EXEMPLO
Uma lição de amor ao próximo, muito propriamente chamado Um Sonho Possível, roteiro inspirado em história e personagens reais. Deu o Oscar de Melhor Atriz para Sandra Bullock que encarnou a personagem, clareou os cabelos e caprichou no sotaque caipira... Emocionante exemplo de caridade.
LIÇÃO
Filme obrigatório para quem tem como costume santificar seres humanos, desconhecendo-os como frágeis e imperfeitas criaturas. A Dúvida tem Meryl Streep e Philip Seymor Hoffman como atores principais e conta com Amy Adams (Julia&Julie). Aborda questões de religião, autoridade e moralidade. Envolve sentimentos como a Inveja entre religiosos e mostra o perigo de erro nos pré-julgamentos ou acusações aleatórias.
Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br
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