Meu contumaz leitor crítico está com as medidas cheias e não deixa por menos. Sempre que possível me diz com todas as sílabas, entoações várias e estudadas pausas; passando a mão pelo rosto, pela boca, em sinal de desalento, começa a velha cantilena:
– Você escreve muito difícil! Muita gente não consegue ler suas coisas. Não é isso que o povo quer. Poucos entendem o que você publica...
Rebato assim de brincadeira, como posso, às vezes apelando para uns argumentos meio agressivos:
– Para satisfazer à maioria do povo, já basta o que o seu autor preferido escreve todas as semanas, com tantas indiretas e tantas alfinetas, com tanta ficção e recordações. Algumas pessoas querem outro tipo de leitura.
Ele não gosta muito da réplica:
– Meu autor preferido não vive de indiretas e alfinetadas. Ele fala a verdade, seus artigos têm substância.
Meu contumaz leitor crítico, além de expender as suas, ainda capta as opiniões alheias e as traz até mim, como forma de me convencer das mudanças internas que preciso operar:
– Sabe que gostaram por aí do que você escreveu umas semanas passadas sobre o ano novo? Um pouco pessimista, é verdade, mas a pura verdade. É isso que o povo quer. Nada de euclidices, de literatices. O povo gosta é de fatos concretos, exemplares, de entendimento direto e simples.
Aí dou uma de intelectual desengajado:
– E quem lhe disse que eu escrevo para o povo?
Meu crítico faz outras caretas peculiares, quer até mudar de assunto, mas não consegue não morrer pela boca:
– Então você não escreve para ser lido?
– Sim, em termos.
– Como em termos?
– Não preciso agradar especificamente a ninguém. Quero ser lido por quem tenha um mínimo de afinidades com o que penso, o que sinto, o que defendo.
– E o que é que você defende, se não trata de coisas, não mostra o certo e o errado?
– Em primeiro lugar, defendo a liberdade de opinião, tanto minha quanto do leitor. Meu pensamento é livre. Escrevo sobre o que gosto; se o leitor não gosta, já na segunda ou terceira linha acha o assunto chato, e pronto. Pode até reler os artigos que você recomende, porque o mais provável é que primeiro leiam as matérias de geral predileção e depois, muito depois, deem uma passa de olhos pela minha. Muitos nem dão.
– Hmmmmm!
(Este som de difícil representação gráfica, tem uma complexa gama de significados. A esta altura quer dizer que meu crítico mal contém a enorme vontade de me esganar.)
– Em segundo lugar, defendo o prazer de escrever por escrever, semanalmente. Sou chegadinho a uma sutileza literária, filosófica, coisas do gênero. Você e seus autores preferidos são do tipo pão, pão, queijo, queijo.
– Ah, isso eu sou mesmo. Nada de perfumarias. Quem escreve, precisa ensinar, advertir, alertar, cobrar, edificar. Você não faz nada disso.
– Quase nunca, explicitamente. Não escrevo por obrigação nem por profissão.
– Isso deve ser.
– Então! Um jornal precisa ter de tudo, até espaços como o meu, inacessível a alguns leitores. Caso contrário, se todos pensassem como você, passaria a ser um manual de educação religiosa, moral e cívica, o que é bom, mas não a finalidade de um jornal leigo contemporâneo, moderno, com as características, por exemplo, de um Comércio da Franca.
– É, mas você perde tempo com muitos assuntos à-toa.
– Sabe como é, a discussão entre utilidade e o prazer vem de longe, dos pré-socráticos.
– E daí?
– Daí que, sem querer, alternamos na vida as posições de Marta e de Maria, aquelas duas da Bíblia, uma ocupada e outra contemplativa.
– Não precisa explicar. Está em Lucas, 10:38-42.
– Puxa, sabe assim de cor?
– ... (E que contentamento em seu silêncio...)
– Então, até logo, Marta brinco com ele.
– Neste caso, até logo, Maria. Aproveite bem o seu ócio, porque você terá de prestar conta de tudo. De tudo, ouviu bem?
– Você escreve muito difícil! Muita gente não consegue ler suas coisas. Não é isso que o povo quer. Poucos entendem o que você publica...
Rebato assim de brincadeira, como posso, às vezes apelando para uns argumentos meio agressivos:
– Para satisfazer à maioria do povo, já basta o que o seu autor preferido escreve todas as semanas, com tantas indiretas e tantas alfinetas, com tanta ficção e recordações. Algumas pessoas querem outro tipo de leitura.
Ele não gosta muito da réplica:
– Meu autor preferido não vive de indiretas e alfinetadas. Ele fala a verdade, seus artigos têm substância.
Meu contumaz leitor crítico, além de expender as suas, ainda capta as opiniões alheias e as traz até mim, como forma de me convencer das mudanças internas que preciso operar:
– Sabe que gostaram por aí do que você escreveu umas semanas passadas sobre o ano novo? Um pouco pessimista, é verdade, mas a pura verdade. É isso que o povo quer. Nada de euclidices, de literatices. O povo gosta é de fatos concretos, exemplares, de entendimento direto e simples.
Aí dou uma de intelectual desengajado:
– E quem lhe disse que eu escrevo para o povo?
Meu crítico faz outras caretas peculiares, quer até mudar de assunto, mas não consegue não morrer pela boca:
– Então você não escreve para ser lido?
– Sim, em termos.
– Como em termos?
– Não preciso agradar especificamente a ninguém. Quero ser lido por quem tenha um mínimo de afinidades com o que penso, o que sinto, o que defendo.
– E o que é que você defende, se não trata de coisas, não mostra o certo e o errado?
– Em primeiro lugar, defendo a liberdade de opinião, tanto minha quanto do leitor. Meu pensamento é livre. Escrevo sobre o que gosto; se o leitor não gosta, já na segunda ou terceira linha acha o assunto chato, e pronto. Pode até reler os artigos que você recomende, porque o mais provável é que primeiro leiam as matérias de geral predileção e depois, muito depois, deem uma passa de olhos pela minha. Muitos nem dão.
– Hmmmmm!
(Este som de difícil representação gráfica, tem uma complexa gama de significados. A esta altura quer dizer que meu crítico mal contém a enorme vontade de me esganar.)
– Em segundo lugar, defendo o prazer de escrever por escrever, semanalmente. Sou chegadinho a uma sutileza literária, filosófica, coisas do gênero. Você e seus autores preferidos são do tipo pão, pão, queijo, queijo.
– Ah, isso eu sou mesmo. Nada de perfumarias. Quem escreve, precisa ensinar, advertir, alertar, cobrar, edificar. Você não faz nada disso.
– Quase nunca, explicitamente. Não escrevo por obrigação nem por profissão.
– Isso deve ser.
– Então! Um jornal precisa ter de tudo, até espaços como o meu, inacessível a alguns leitores. Caso contrário, se todos pensassem como você, passaria a ser um manual de educação religiosa, moral e cívica, o que é bom, mas não a finalidade de um jornal leigo contemporâneo, moderno, com as características, por exemplo, de um Comércio da Franca.
– É, mas você perde tempo com muitos assuntos à-toa.
– Sabe como é, a discussão entre utilidade e o prazer vem de longe, dos pré-socráticos.
– E daí?
– Daí que, sem querer, alternamos na vida as posições de Marta e de Maria, aquelas duas da Bíblia, uma ocupada e outra contemplativa.
– Não precisa explicar. Está em Lucas, 10:38-42.
– Puxa, sabe assim de cor?
– ... (E que contentamento em seu silêncio...)
– Então, até logo, Marta brinco com ele.
– Neste caso, até logo, Maria. Aproveite bem o seu ócio, porque você terá de prestar conta de tudo. De tudo, ouviu bem?
![]() |
Everton de Paula é professor, escritor, conferencista. Fundador e membro da Academia |
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.
