Formato micro, informação máxima


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A Globo começou janeiro mostrando uma das suas mais primorosas produções dos últimos tempos, Dalva e Herivelto. O roteiro coube a Maria Adelaide Amaral, a direção a Denis Carvalho. Fábio Assunção e Adriana Esteves arrasaram como protagonistas.

O enredo, com cinco capítulos, exibiu duas histórias. Uma, a que se viu no primeiro plano, refez o começo, o meio e o fim do relacionamento amoroso-profissional do casal Dalva de Oliveira e Herivelto Martins. Grande voz, Dalva ia do contralto ao soprano; intérprete tímida, cresceu no palco ao se unir a Herivelto, compositor já reconhecido, autor dos clássicos Praça Onze e Ave-maria do morro. Ficaram casados de 1936 a 1949. A separação aconteceu da pior maneira possível, com lavação de roupa suja em público, nas páginas dos jornais, e muito sofrimento para todos, filhos pequenos incluídos. Fizeram parte deste conflito, no final, as músicas que os artistas gravavam para se agredirem, e que os fãs acompanhavam tomando partido. Não se sabe se as gravadoras incentivaram a contenda por interesse comercial. De certo, ela foi responsável por composições que permanecem memoráveis, regravadas por intérpretes ilustres do nosso cancioneiro. Para defender Herivelto, Lupicínio Rodrigues escreveu Vingança; Wilson Batista, Calúnia; David Nasser, Cabelos brancos. Todas trágicas. Tomando as dores de Dalva, Nelson Cavaquinho compôs Palhaço; Ataulfo Alves, Errei, sim; J. Piedade, Tudo acabado. Todas melancólicas. Inesquecível, para quem assistiu à micro, foi a música-tema, escolhida a dedo, Segredo, do próprio Herivelto junto a Marino Pinto, que começa assim: “Teu mal é comentar o passado/ ninguém precisa saber/ o que houve entre nós dois/ o peixe é pro fundo das redes/ segredo é pra quatro paredes/ primeiro é preciso julgar/ pra depois condenar.” Até João Gilberto gravou. A letra é uma contradição em termos, pois ao mesmo tempo em que pedia segredo, o tornava público. Licenças poéticas à parte, como o perfil alterado do segundo marido de Dalva, Tito Climent, a história foi muito bem conduzida, refletindo pesquisa extensa. O argumento manteve o espectador interessado, garantindo excelentes índices de audiência para o horário e o mês, comumente em baixa por conta das festas e das férias.

A outra história, que correu paralela, revelou para as gerações mais jovens como era o mundo da música brasileira antes da televisão. Os programas de auditório, especialmente os da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, capital do País até 1960, tornavam-se os grandes divulgadores de talentos. Pelos microfones daquela emissora, que seria fechada por decreto nos primeiros anos da ditadura militar, passaram os maiores cantores das décadas de 30 a 60. A microssérie fez o resgate de alguns nomes: Linda e Dircinha Batista, Aracy de Almeida, Marlene, Emilinha, Dercy Gonçalves, Grande Otelo... Havia concursos, premiação, eleição de reis e rainhas da voz. A Revista do Rádio, produto editorial derivado deste modelo, circulou no período com tiragens espantosas, cobrindo até o mais afastado rincão brasileiro. Fazia a propaganda dos artistas e antecipava a venda dos discos de vinil que chegavam às lojas com capas assinadas por artistas gráficos e as faixas já decoradas pelos fãs.

Este tempo duplo e congelado no passado foi muito bem resgatado pela equipe que produziu Dalva e Herivelto. A exiguidade de capítulos, apenas cinco, levou protestos à Globo, porque os telespectadores queriam ver mais. A emissora abriu espaço para a explicação da roteirista e do diretor. Eles dissseram ter feito uma opção estética pela síntese, buscando reproduzir o que o rádio despertava nos ouvintes. Sem imagens, estes tinham que suprir as carências da informação com a imaginação. Nisso residia o encanto: sonhar roupas, cenários, palcos, olhares, gestos e tudo o mais que a voz , e apenas ela, ensejava. Por isso a micro foi concebida com cenas rápidas, elipses surpreendentes, muitas lacunas intencionais entre sequências. Foi o que trouxe o gosto de quero-mais: o prazer de ir compondo com a imaginação o que ficava faltando entre as imagens. Pois não dizem os analistas que é na falta que se cria?

Para não ficar apenas na saudade, depois do Carnaval a Globo vai lançar a microssérie em Blu-ray. Guarde este nome. É sinônimo de nova tecnologia, de conteúdo em alta definição. Ocupará o lugar do DVD, já tornado obsoleto.

As ferramentas são rapidamente substituídas. A manifestação artística permanece.



 

Sônia Machiavelli é autora de Uma bolsa grená, Estações, Jantar na Acemira e O poço

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