Natura desnaturata


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Dizem que a natureza é vingativa e que responde com catástrofes à irresponsabilidade dos homens que incendeiam as matas, que desnudam o solo, que constróem represas, que rasgam as encostas das montanhas com suas estradas, que poluem os ares com seus venenos. A natureza tem suas leis que não podem ser transgredidas impunemente. Se, desobedecidas, virão, mais cedo ou mais tarde, as duras penalidades em forma de enchentes, deslizamentos de terra, inundações, nevascas, avalanches, calor abrasador e frio insuportável.

A natureza é vingadora. Será mesmo? Será que ela tem consciência e, caso tenha, não se importa com a dor dos flagelados, com a morte dos inocentes, com a penúria dos desabrigados, com os lamentos das vítimas, com a desesperança dos sobreviventes?

Mais do que vingadora, a natureza é injusta. Ela ataca principalmente os indefesos, os pobres, os oprimidos, os excluídos, os ocupantes de moradias subumanas, os despossuídos, os deserdados da sorte.

O que fizeram os asiáticos para provocarem as ondas monstruosas que arrasaram o seu litoral? Qual foi a contribuição dos haitianos para que sua terra tremesse e deixasse em ruínas o país?

Ah! Natureza vingativa. Vingativa, injusta, cruel e elitista, pois ataca especialmente as populações miseráveis , desafortunadas e nem sequer ameaça os luxuosos balneários e as suntuosas áreas urbanas onde habitam os ricos e poderosos. Devasta as costas asiáticas e, agora, arrasa o Haiti. Pobre Haiti! Como se não bastasse a corrupção generalizada, a eterna instabilidade política, a bandidagem instalada, a violência rotineira, as superstições e ignorância arraigadas do povo, ainda tem de enfrentar os caprichos de uma natura desnaturada, cruel, elitista e injusta. Natura implacável que não poupou nem a Dra. Zilda Arns que lá estava imbuída de sua missão cristã de salvar e amparar vidas, vidas de crianças carentes e subnutridas. Ela não sobreviveu à fúria da natureza injusta e destemperada. Até mesmo soldados brasileiros encarregados de promover a paz ( e não a guerra ) sucumbiram sob os escombros do terremoto.

Para nossa sorte, prezado leitor, o Haiti é ali e não aqui ( como cantava Caetano ). Felizmente, ainda não temos terremotos.



 

Chiachiri Filho é historiador, criador e diretor por oito anos do Arquivo municipal e membro da Academia Francana de Letras

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