Sigilo já era


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O recente escândalo dos “demos” em Brasília, com seus panetones e meias cheias de dinheiro, é uma demonstração definitiva de que não existe sigilo para mais nada. Nas ruas da cidade somos vigiados por câmeras que nem percebemos, nas lojas às vezes nos percebemos como artistas mambembes à espera do atendimento, vendo nossa própria imagem na profusão de telas e vídeos que a insegurança permanente das cidades vende como ilusão de que está tudo sob controle.

A segurança midiática e a força das imagens vão construindo um outro jeito de ver e aprender as coisas, esse caderno de letras mesmo é um ato de resistência do jornal impresso, que vai se tornar coisa do passado, o futuro é o jornal na internet. Lembro de dois episódios quase hilários dos anos 70 que reforçam a mudança rápida que ocorreu. Naquela época, uma cunhada minha começou a namorar um rapaz francano de família tradicional que estudava agricultura em Pirassununga, se não me engano. Naquele tempo, namoro à distância era por carta, não havia outro jeito, não existia celular e telefone era artigo de luxo, eu mesmo lembro de quantas escrevi e como ficava ansioso à espera da chegada de uma carta da namorada. Sei que certo dia, minha cunhada recebeu uma carta do namorado. Só que estava endereçado para outra menina, que também estudava no mesmo colégio que ela. Por sua vez, a menina recebeu outra carta, endereçada para minha cunhada. Ele havia trocado os envelopes. Resultado: tomou dois pés nas duas nádegas, para aprender a não namorar duas ao mesmo tempo.

Com minha irmã foi pior. Estudante de artes em Ribeirão Preto, morava numa pensão com a Xuruca, filha do engenheiro Nestor Cunha Lima. De lá, numa sexta-feira, escreveu uma carta para o namorado que estudava em Mogi das Cruzes. Deu dinheiro para uma empregada da pensão colocar no correio e veio para Franca passar o final de semana. Só que a carta estava muito pesada e ela voltou para trás, o dinheiro não dava para postar.

Na segunda-feira cedo, meu pai foi surpreendido no banco onde trabalhava pela presença na dona da pensão, que veio indignada de Ribeirão Preto a Franca para dizer que sua filha estava denegrindo sua imagem e da pensão que dirigia. A mulher havia quebrado o sigilo postal garantido pela Constituição, aberto a tal carta e lido, onde ela escrevia algo mais ou menos assim: “escrevo estas mal traçadas aqui da minha maloca...”. A mulher se ofendeu com aquilo, disse que sua pensão não era uma espelunca e deu bilhete vermelho para minha irmã que, a bem da verdade, apenas fazia uma citação da letra de Adoniran Barbosa, pois vivia com um violão nas mãos, como até hoje, tocando na igreja, depois de expulsa da maloca ribeirãopretana.



 

Mauro Ferreira é arquiteto, escritor

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