Tempo de luto


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Ficaste sozinho, a luz
apagou-se, / mas na sombra teus olhos resplandecem enormes. / [...] / Teus ombros
suportam o mundo.”
Carlos Drummond
de Andrade
in Os ombros suportam
o mundo


As entranhas da Terra têm suas linhas e entrelinhas, secretas páginas em que se escrevem histórias de superfície. Assim, caminhos de vida e de morte podem ser traçados desde os abissais telúricos.

No décimo segundo dia deste ano que ainda amanhece, a noite cai sobre uma cidade. Por volta das 19h50 (horário de Brasília), infernais poemas de horror brotam de espaços profundos e, em toda a sua áspera crueza, varrem a História que penosamente se escrevia aos olhos do sol, em cimento e tijolos, em pele e músculos e sangue e alma. E Porto Príncipe, a capital do país mais pobre das Américas - e um dos mais pobres do mundo - é quase apagada para ser reescrita em outras - ainda mais duras - palavras.

Enquanto cientistas falam de placas tectônicas e seus movimentos de acomodação gerando abalos sísmicos, enquanto pessoas comuns evocam histórias de fatalidade, há quem só possa dizer uma palavra -DOR - ou não possa dizer nada. “Chega um tempo em que [...] os olhos não choram. / [...] / E o coração está seco”.

No Haiti, pelo engenho de uma perversa máquina do mundo que abriu súbitos e abismais caminhos para além de Dante, chegou um tempo em que coração e olhos são mãos, e as mãos tecem apenas mudos gritos de sobrevivência.
“Chegou um tempo em que a vida é uma ordem. / A vida apenas, sem mistificação.”



 

Eny Miranda Médica e poeta

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