– Bom-dia, sô Chico.
– Bom-dia, jovenzinho. Você me perdoe, mas não estou lembrado da sua fisionomia. Qual é a sua graça?
– O meu nome é José Antônio. Eu conheço o senhor. Quando eu era menino, eu morava perto da sua casa , lá na Rua Padre Conrado, encostado na casa do senhor Jair, motorista de praça.
– Sei, sei, perto do Campo do Internacional.
– Isso, isso. Mas o que é que o senhor está fazendo aqui na Praça do Cemitério? Veio acompanhar algum enterro ?
– Deus me livre, menino! Estou é indo no Coronel Nhô Chico, ver o jogo da Francana contra o Uberaba.
– Xi, faz tempo que não tem jogo aqui mais não, sô Chico. Agora só tem jogo lá no Lanchão.
– Uai, que estranho. Ontem mesmo estive conversando com o Garito... Ele até falou que o Luisinho Rosa não vai jogar, porque está com o pé inchado.
O “jovenzinho”, com cerca de cinqüenta anos, nem havia nascido quando a equipe da Francana consolidou a fama de Feiticeira, principalmente nos anos de 1947 a 1950. Era a Feiticeira, porque dela não se ganhava nem com reza braba. O onze esmeraldino daquela época era muito forte, e seus integrantes ficaram na história esportiva da cidade: Marreco, Antero e Mauri; Tuti, Gonçalves e Eca; Tim, Tidão, Tonho Rosa, Luisinho Rosa e Canhotinho.
– Quem é que falou que ia ter jogo aqui ?
– Foi o Garito que falou... ele é meu amigo. Todo mundo conhece ele, por causa do jogo contra a Ferroviária de Araraquara. Eu assisti àquele jogo, debaixo de uma chuvinha fria. Faltavam três minutos para o final, quando o juiz apitou uma falta perigosa contra nós, na entrada da área. O Garito não queria barreira, os companheiros discutiram com ele. Ah, mas o rapazinho era teimoso. Além de dispensar a barreira, ainda contou papo “Vou tirar de cabeça”. E não é que o danado do Garito quase matou todo mundo de susto? Ao invés de ir com as mãos na bola, desviou a danada de cabeça, para escanteio.
Chico Franco vai contando tudo, cada detalhe embrulhado num punhado de gestos e de chutes. Antes de o juiz apitar o fim do jogo, ocorrido há mais de 60 anos, arremata.
– O presidente da Francana era o Bigu, comprador de café.
Interrompe a narração, pergunta:
– Como é que eu faço para chegar na Rua dos Bondes? Preciso ir almoçar.
– Rua o quê?
– Rua dos Bondes.
O senhor quer ir pra onde ?
– Eu quero ir lá pra estação da Mogiana. Eu moro atrás da linha de ferro.
– Sei, sei. Então o senhor faz assim: vai reto, aqui na Rua do Comércio, até bem lá adiante. Aí o senhor pergunta qual é a rua que vai para a Estação... Qualquer um ensina.
Chico Franco se vai nos seus sapatos bem engraxados, no seu terno de linho branco. Vai driblando lembranças rua afora. Sua mão esquerda se apóia na bengala, enquanto a direita cumpre a função de levantar a aba do chapéu, de descobrir-se cada vez que cruza com algum transeunte.
Algumas pessoas respondem curiosas ao cumprimento do velho muito magro. A maioria, porém, perdida e desnorteada no presente sólido, nem percebe o gesto antigo tão próximo.
– Bom-dia, jovenzinho. Você me perdoe, mas não estou lembrado da sua fisionomia. Qual é a sua graça?
– O meu nome é José Antônio. Eu conheço o senhor. Quando eu era menino, eu morava perto da sua casa , lá na Rua Padre Conrado, encostado na casa do senhor Jair, motorista de praça.
– Sei, sei, perto do Campo do Internacional.
– Isso, isso. Mas o que é que o senhor está fazendo aqui na Praça do Cemitério? Veio acompanhar algum enterro ?
– Deus me livre, menino! Estou é indo no Coronel Nhô Chico, ver o jogo da Francana contra o Uberaba.
– Xi, faz tempo que não tem jogo aqui mais não, sô Chico. Agora só tem jogo lá no Lanchão.
– Uai, que estranho. Ontem mesmo estive conversando com o Garito... Ele até falou que o Luisinho Rosa não vai jogar, porque está com o pé inchado.
O “jovenzinho”, com cerca de cinqüenta anos, nem havia nascido quando a equipe da Francana consolidou a fama de Feiticeira, principalmente nos anos de 1947 a 1950. Era a Feiticeira, porque dela não se ganhava nem com reza braba. O onze esmeraldino daquela época era muito forte, e seus integrantes ficaram na história esportiva da cidade: Marreco, Antero e Mauri; Tuti, Gonçalves e Eca; Tim, Tidão, Tonho Rosa, Luisinho Rosa e Canhotinho.
– Quem é que falou que ia ter jogo aqui ?
– Foi o Garito que falou... ele é meu amigo. Todo mundo conhece ele, por causa do jogo contra a Ferroviária de Araraquara. Eu assisti àquele jogo, debaixo de uma chuvinha fria. Faltavam três minutos para o final, quando o juiz apitou uma falta perigosa contra nós, na entrada da área. O Garito não queria barreira, os companheiros discutiram com ele. Ah, mas o rapazinho era teimoso. Além de dispensar a barreira, ainda contou papo “Vou tirar de cabeça”. E não é que o danado do Garito quase matou todo mundo de susto? Ao invés de ir com as mãos na bola, desviou a danada de cabeça, para escanteio.
Chico Franco vai contando tudo, cada detalhe embrulhado num punhado de gestos e de chutes. Antes de o juiz apitar o fim do jogo, ocorrido há mais de 60 anos, arremata.
– O presidente da Francana era o Bigu, comprador de café.
Interrompe a narração, pergunta:
– Como é que eu faço para chegar na Rua dos Bondes? Preciso ir almoçar.
– Rua o quê?
– Rua dos Bondes.
O senhor quer ir pra onde ?
– Eu quero ir lá pra estação da Mogiana. Eu moro atrás da linha de ferro.
– Sei, sei. Então o senhor faz assim: vai reto, aqui na Rua do Comércio, até bem lá adiante. Aí o senhor pergunta qual é a rua que vai para a Estação... Qualquer um ensina.
Chico Franco se vai nos seus sapatos bem engraxados, no seu terno de linho branco. Vai driblando lembranças rua afora. Sua mão esquerda se apóia na bengala, enquanto a direita cumpre a função de levantar a aba do chapéu, de descobrir-se cada vez que cruza com algum transeunte.
Algumas pessoas respondem curiosas ao cumprimento do velho muito magro. A maioria, porém, perdida e desnorteada no presente sólido, nem percebe o gesto antigo tão próximo.
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Luiz Cruz de Oliveira é professor, escritor, membro da Academia Francana de Letras |
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