+ três janelas para entender Clarice


| Tempo de leitura: 4 min
Clarice, assim mesmo com esta vírgula pendurada, recusando o definitivo, é o título da biografia da maior ficcionista brasileira, Clarice Lispector (1920-1977), assinada pelo norte-americano Benjamim Moser. Já se manifestaram com elogios New York Times, London Times, Bookforum, Economist e outros. No Brasil, renomado jornalista foi raso e infeliz ao lembrar que “o relato não mostra como CL fritava um ovo”. Não mostra mesmo. Os leitores que estiverem esperando coisas prosaicas e comezinhas podem desistir das 648 páginas. O autor priorizou a gênese literária, o que significa mergulhar em profundidade. Sua extenuante pesquisa e seu empenho na análise apontam a procura incessante da biografada pelo “símbolo da coisa na própria coisa, o estado atrás do pensamento.”

Duas linhas constroem Clarice, enquanto narração cronólogica: a histórica e a individual. Entre elas o autor vai procedendo ao desvelamento de parte do mistério que sempre envolveu esta mulher superlativa. Outros pesquisadores já tinham enfrentado o desafio. Cada um a seu modo abriu frestas e trouxe contribuição para a compreensão do enigma que ainda representam autora e obra.
Moser escancarou algumas janelas. Vamos destacar três.

A primeira funda leitura psicanalítica e traz a público um fato íntimo que a judia família Lispector sempre procurou ocultar. Mania, mãe de CL, foi estuprada por soldados russos em um dos incontáveis pogroms desencadeados pós-revolução bolchevique. Contraiu sífilis; e isto, numa época em que não se contava com antibiótico, representava condenação. Mas havia a crença de que uma gravidez purificava o corpo da mulher. Mania engravida do marido Pinkhas, nasce Chaya (em português Vida), que no Brasil receberia, ainda bebê, o nome Clarice. Mania não se curou, morreu dez anos depois. A filha teria desenvolvido complexo de culpa: concebida para salvar a mãe, não conseguira fazê-lo. Sua infância se fecha com este luto, que se estenderá por toda a sua ficção como lado escuro e violento. “Sem entender esta origem, não se pode compreender a obra”, afirma o autor.

A segunda janela se abre para a leitura mística, apontando a epifania que representou Baruch Spinoza (1632-1677) no espírito de CL. Judeu holandês, foi expulso de sua comunidade ao conferir valor apenas alegórico aos textos sagrados e conceber Deus como ser de infinitos atributos, entre os quais a extensão (matéria) e o pensamento (energia). Estas convicções panteístas povoam o imaginário da romancista desde Perto do coração selvagem até Água viva, passando pelos contos. Segundo Moser, é como se ela tentasse responder, também com Spinoza, à pergunta que se fazia desde a infância : por que este mundo? Num dos mais percucientes capítulos, o biógrafo mostra, com apoio no texto clariceano, como esta busca obsessiva levou a autora a reconhecer o divino no olhar de um cão, no desenho de um ovo, no de-dentro de uma barata esmagada. O deus sem nome, o deus desumanizado, o divino que tudo permeia sem moralidade: isto é Spinoza, cujo exemplar anotado pela escritora foi uma das importantes descobertas do biógrafo. Isto é também, sabem os leitores de A Paixão segundo G.H., a CL depurada, absoluta.

A terceira revela a estética nova que deixou perplexa a crítica no Brasil que ainda pensava em termos modernistas quando CL irrompeu com seu primeiro romance. Era a mesma estética do alemão Hermann Hesse (1877-1962), autor de eleição de CL, muito mais que Woolf e Joyce, que ela garantia não ter lido antes de começar a publicar; e que Mansfield, por quem explicitava sua admiração. Moser atribui ao autor de O lobo da estepe influência seminal na configuração do texto de CL. Lido e relido, este romance impressionou a jovem escritora pela força com que mostrou o ser humano, dividido em mais de dois lados, refém de infinitas pulsões. Mais ainda a impactou a coerência entre forma e fundo, pois à pulsação das personas correspondia uma escrita igualmente pulsante, muitas vezes fragmentada. No final do romance o protagonista tenta a coordenação das muitas almas que o habitam, anseia por um eixo central que lhe confira unidade.São movimentos que se vêem também nas criações de Clarice e nela própria enquanto pessoa. A frase do outsider Harry Saller, alter ego de Hesse, poderia perfeitamente ser assinada por CL: “Nada lhe posso dar que já não exista em você mesmo”.

Essas possibilidades de análise são apenas algumas no rol de muitas oferecidas por Benjamim Moser na biografia de linguagem clara e elegante. Resultam de um trajeto longo, trilhado por referências documentais e muita empatia pela vida e obra da biografada. Permitem entender com lucidez a divisa de Clarice Lispector: “ Escrever, para mim, é procurar; mas sem me surpreender não consigo escrever.”

Serviço
Título: Clarice,
Autor: Benjamim Moser
Tradução: José Geraldo Couto
Editora: Cosacnaify
Quanto custa: R$ 56,40
Onde comprar: Saraiva.com.br



 

Sônia Machiavelli é autora de Uma bolsa grená, Estações, Jantar na Acemira e O poço

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários